quarta-feira, 30 de março de 2016

Porque as mulheres lutam por Democracia contra o golpe?




Mulheres contra o Golpe - 31 de março nas ruas



Mobilizem-se
as que vem a Porto Alegre: nos somaremos a concentração Comitê de Mulheres contra o Golpe, as 15hs na frente da Ocupação Lanceiros Negros que fica na Andrade Neves esquina com Ladeira.
esperamos a todas, tragam suas bandeiras, batuques, etc...



SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!
NÃO VAI TER GOLPE, JÁ TEM LUTA!

Pela liberdade e contra o golpe corrupto, as mulheres resistem!

*Por Clarisse Paradis

O acirramento das ofensivas contra o governo Dilma e o programa de 2014 ganhou, neste mês, contornos cada vez mais nítidos de ruptura da democracia. As instituições que deveriam exercer controle sobre as regras e alertar e defender a sociedade das ameaças aos seus direitos, passaram a convergir, em disputa desigual dos rumos da crise política, com objetivo de promover um ambiente de total impossibilidade de existência do governo eleito. O discurso do golpe combina instrumentalização da crise econômica, enfraquecimento da imagem da Presidenta Dilma, criminalização do Partido dos Trabalhadores, espetacularização dos escândalos de corrupção e supervalorização da insatisfação de setores como o da classe média. A partir desse discurso busca-se sedimentar uma ideia de convergência total ao impeachment, em diferentes camadas e instituições da sociedade.
A caracterização desse discurso como golpista se dá exatamente porque ele é falacioso. Segundo a tradição política do republicanismo, o respeito às garantias constitucionais são a condição para que cada indivíduo e toda a sociedade seja livre. Isso significa que, quando indivíduos e instituições ferem as leis constitucionais, à revelia da expressão da vontade geral das/os cidadãs/ãos, o ato é em si uma corrupção, logo um atentado à nossa liberdade. O cenário imaginado do pós-golpe é aquele que nenhuma cidadã ou cidadão possa ter certeza do respeito aos seus direitos.
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Marcha das Mulheres Negras. Foto Ana Carolina Barros
Se o golpe é a própria corrupção, o projeto pós-golpe é a materialização da retirada de qualquer garantia aos nossos direitos. Sem legitimidade política, como será possível que as instituições deêm respostas aos conflitos? É somente em tal cenário, que existem as condições para que as forças políticas do golpe possam implementar uma agenda de ataque aos direitos sociais, ambientais, trabalhistas, sexuais, relegando ao mercado a regulação da vida social e esvaziando a política como arena da liberdade.
No entanto, a empreitada do golpe choca-se com um mar de resistência – as forças progressistas estão em luta e demonstraram ter capacidade organizativa e respaldo político para disputar os rumos das atuais disputas.
No conjunto dos esforços de resistência das forças progressistas, é preciso reconhecer o papel das mulheres na construção do discurso em defesa da democracia. Denunciamos as manifestações machistas e misóginas contra a presidenta Dilma, fomos às ruas enfrentar as forças conservadoras no Congresso e seu imbricamento com o programa golpista, especialmente a partir do dep. Eduardo Cunha, contribuímos em estabelecer uma tônica irreverente para os protestos, em conjunto com as classes artísticas, a juventude, entre outros, traduzindo a defesa da democracia em uma agenda do amor contra o ódio, da alegria contra a intolerância, da igualdade contra o elitismo, da liberdade contra a corrupção.
É preciso reconhecer que historicamente as mulheres lutaram bravamente para a conquista da cidadania. Por muito tempo mulheres, negros e entre eles o conjunto da classe trabalhadora, estiveram a margem dos direitos cidadãos. Foi somente muito recentemente na história brasileira, que a ideia de igualdade e liberdade estiveram vinculadas ao aprofundamento e ampliação da democracia.
Resistir ao golpe é especialmente simbólico para as mulheres: sabemos quem paga a conta no interior das famílias, quando o Estado é reduzido, sabemos como a nossa vida e nossos corpos são fortemente controlados com a ampliação das esferas do mercado e como o racismo e o patriarcado são fundamentais para as engrenagens do projeto de exclusão do pós-golpe.
Sabemos quanta luta foi necessária para a conquista da democracia e quanta bárbarie se pode cometer na ausência dela.
*Clarisse Paradis é militante da Marcha Mundial das Mulheres em Minas Gerais

quinta-feira, 17 de março de 2016

Mulheres de todo o Brasil se mobilizam para ato em defesa da democracia

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Nesta sexta-feira (18) acontece o Ato Nacional em Defesa da Democracia, pelos Direitos Sociais e Contra o Golpe, organizado pela Frente Brasil Popular em todos os estados do país. A Frente foi lançada em 2015 e, composta por dezenas de organizações, como a MMM, a CUT, o MST, a UNE, entre outros, se propõe a mobilizar a população em torno de agendas unitárias da política nacional, na defesa da democracia e dos direitos das e dos trabalhadores.
“Nós temos o entendimento de que é preciso defender a democracia nas ruas, pois é uma grande ameaça que todas as organizações sofrem e, mais do que isso, é uma ameaça à soberania popular, à medida que se tenta desestabilizar um governo eleito democraticamente e perseguir as lideranças políticas de esquerda, como vem ocorrendo com o ex-presidente Lula”, afirma Ticiana Studart, da MMM no Ceará.
Para Maria do Carmo Bittencourt, da MMM RS, “não estamos na rua para defender Lula como indivíduo e pessoa, mas o que o ex-presidente significa para a história do Brasil e para história deste projeto democrático popular que se identifica pela ênfase no combate à fome, combate à pobreza, inclusão social, de grandes massas da população, mas ainda muito frágil na inclusão política. Por isso, dizemos que não estamos na rua na defesa de um governo, mas sim na defesa de um projeto de país, que é o que se faz necessário para que continuemos avançando”.
O ato é uma resposta aos ataques conservadores, articulados pelos grandes meios de comunicação, grandes empresas e seus representantes no poder legislativo e judiciário. Na última semana, vimos as ações desse setor reacionário: manifestações de direita, invasão da Polícia Militar no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, depredação da sede da UNE e ataques a diretórios do PT. Trata-se de um setor que quer retroceder qualquer avanço mínimo conquistado pelas e pelos trabalhadores desse país e que está articulado também pela América Latina, nos países que contam com governos progressistas.
“Esse golpe vem mascarado como combate à corrupção mas, na verdade, o que quer é desmantelar não só o Partido dos Trabalhadores, mas também os movimentos sociais e as organizações que fazem a luta no Brasil hoje por mudanças em favor do povo e em favor da redistribuição da riqueza, da garantia de políticas públicas, dos direitos sociais e universais, da garantia de que o povo pobre possa ter acesso à cidadania”, diz Nalu Faria, da MMM em São Paulo.
Segundo a militante, a defesa da democracia e a resistência aos ataques conservadores deve ser uma das pautas do movimento feminista, aliada a todas as pautas específicas pelos direitos das mulheres. “Nós, feministas, temos sentido nos últimos anos o peso da agenda conservadora, o peso da ação da agenda conservadora que tenta, justamente, fazer retroceder no âmbito das leis, das politicas, qualquer conquista que nós tenhamos, assim como impedir qualquer avanço que demandamos”, diz Nalu. Para Maria do Carmo, “se perdermos a democracia que foi tão arduamente conquistada no país, iremos perder muito da nossa organização enquanto movimento feminista. Vamos perder muito da nossa articulação, perder muitos anos de avanços”.
A Marcha Mundial das Mulheres aposta que a força organizada e articulada dos movimentos sociais e setores progressistas da sociedade, em aliança, tem condições de mudar o rumo dessa história, que ainda não está dado. O ato no dia 18 é um momento político importante para barrar não apenas o golpe, como todas as propostas de retrocesso, como a Lei Antiterrorismo, a Reforma da Previdência, o PL 5069, e exigir mais mudanças para a vida das e dos trabalhadores, das mulheres, da população negra, indígena e quilombola, para a população LGBT. Por isso, convoca o conjunto de mulheres à mobilização pelas bandeiras históricas do feminismo e pela defesa da democracia em unidade aos outros movimentos sociais.
Para Nalu, “não vamos abrir mão da consideração de que para impedir o golpe e a destruição dos movimentos sociais, temos que ter uma mudança em nossa política econômica. Precisamos recuperar o emprego, a redistribuição de renda em nosso país”. “É preciso que este governo não apenas tenha continuidade, mas que cumpra o programa pelo qual foi eleito, avançando nos direitos para as mulheres e para a classe trabalhadora”, completa Ticiana. Maria do Carmo finaliza afirmando: “estamos mobilizadas para lutar todos os desengavetamentos de projetos que ameaçam os movimentos sociais e que retiram nossos direitos. Não vai ser nada fácil para essa elite, agora, calar a classe trabalhadora”.

sexta-feira, 11 de março de 2016

NOTA DO CNDM - Nenhum retrocesso na busca da igualdade de gênero

Nenhum retrocesso na busca da igualdade de gênero


Com perplexidade constatamos que o Senado aprovou em 09/03/2016, a retirada da perspectiva de gênero das atribuições da Secretaria Especial de Politicas para as Mulheres do Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos e a singularização indevida do Pacto de São José como o único instrumento internacional com o qual o Brasil estaria comprometido. Tal decisão constitui barreiras ao exercício dos direitos sexuais e reprodutivos.
É com profunda indignação que vimos a publico denunciar esse fato e afirmar nossa total discordância, por considerarmos que afronta e ameaça à consolidação dos direitos humanos no Brasil.
É necessário denunciar que essa decisão do Congresso, na contra mão da história, vetou o uso do conceito de gênero, já incorporado em Declarações e Planos de Ação da ONU e em documentos oficiais, diretrizes e marcos legais do Estado Brasileiro.
Esse conceito, pilar na compreensão das desigualdades sociais entre homens e mulheres, indica que para além do sexo biológico, condicionantes culturais e sociais influem na forma como o masculino e o feminino se articulam em relações desiguais, bem como a outras  dimensões da desigualdade social envolvendo orientação sexual e identidade de gênero.
Celebrando seus 30 anos de atuação pela afirmação dos direitos humanos das mulheres, o CNDM conclama pela rejeição desse posicionamento do Congresso que, se mantido, atingirá todas as brasileiras e afirma que está em mobilização junto às redes sociais e movimentos de mulheres de todo o país.

Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM)




segunda-feira, 7 de março de 2016

Declaração Internacional - Marcha Mundial das Mulheres resistindo à militarização

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Manifestação da Marcha Mundial das Mulheres pela Desmilitarização. Rio de Janeiro, 2015.
Queridas companheiras, amigas, militantes, lutadoras.
O mundo se prepara para celebrar o 8 de março. O dia internacional de luta das mulheres é comemorado em todo o mundo por sindicatos, organizações e movimentos, grupos de mulheres… que, em muitas ocasiões, ignorando as origens socialistas desta data, homenageiam as mulheres que supostamenta morreram trancadas em um incêndio na fábrica onde trabalhavam nos Estados Unidos.
Nós, da Marcha Mundial das Mulheres, celebramos a luta das mulheres e do movimento feminista em todo o mundo. Celebramos a força de todas aquelas que dedicam seus esforços para se libertarem do patriarcado, do neocolonialismo, do capitalismo e do racismo que são as causas que se encontram na raiz do sistema opressor em que vivemos.
Observamos indignadas como o conceito de Segurança e Paz está completamente mal-interpretado e manipulado, sendo utilizado pelos poderes hegemônicos para justificar a militarização e a “paz armada”, e anulando completamente a perspectiva dos direitos das mulheres e dos direitos humanos.
Constatamos durante nossa 4ª Ação Internacional de 2015 que os conflitos armados e as guerras de tipo não convencional se expandem e se estendem rapidamente por todas as regiões, semeando o medo, doenças, o ódio e a pobreza, e retroalimentando o fundamentalismo. Esta violência, seja ela exercida pelos exércitos, milícias, empresas privadas de “segurança”, mafiosos do crime organizado, soldados das missões internacionais de pacificação ou pelos próprios Estados, beneficia um sistema capitalista patriarcal no qual as mulheres são sempre as que mais sofrem.
Na Ásia é cada vez mais patente a presença das bases militares de potências estrangeiras, com graves consequências na violação dos direitos das mulheres, no aumento da prostituição, dos casos de violência contra mulheres e crianças, tráfico de pessoas, etc.
Na África os “libertadores” do continente se converteram em opressores da cidadania e fazem uso de um poder autoritário para continuar limitando de forma radical as libertades e direitos democráticos da população. Nessa conjuntura, grupos fundamentalistas brotam rapidamente: de tipo religioso, étnico ou cultural, autodenominados defensores do povos, eles ganham força a cada dia e se expandem perigosamente pelo território, impondo condições de vida desumanas e violando os direitos das mulheres.
Nos países Árabes vemos como a instabilidade e os conflitos armados na Síria, Iraque, Libia e Iemen são alimentados pelas potências econômicas que ampliam seus lucros através do comércio de armas e encontram no caos um terreno fértil para impor seus interesses, sem se importar com o sofrimento que isso acarreta para a população civil desarmada. Milhares de pessoas fogem da região em busca de paz e segurança. Mulheres e crianças estão super vulneráveis, sendo alvo de violações sexuais e todas as violências, sendo obrigadas a trocar favores sexuais pela possibilidade de perseguir seu sonho de conseguir refúgio e serviços básicos em países supostamente mais seguros.
Na Palestina, o governo de Israel continua usando a violência para impor seu sistema de apartheid e colonialismo sionista: o bloqueio de Gaza, as execuções e prisões arbitrárias da população civil, a política de assentamento e derrubada de moradias são a realidade cotidiana que a população palestina sofre. E no Sahara o governo de Marrocos, por meio da força armada, reforça a cada dia sua política de ocupação, saqueio e repressão, ignorando os compromissos internacionais já firmados.
Nas Américas, a natureza está sendo selvagemente expoliada por empresas transnacionais como as mineradoras que utilizam a política e o exército, assim como outras empresas privadas de segurança, para usurpar os recursos e expulsar comunidades inteiras. A água, a terra, as florestas e o ar são privatizados e mercantilizados, deixando as comunidades sem meios para garantir sua subsistência e autonomia.
Na Europa os governos usam o contexto internacional para justificar a criminalização dos movimentos sociais. Constatamos que legislações cada vez mais repressoras restringem as liberdades cidadãs. Observamos a fragilidade dos nossos sistemas democráticos frente ao auge de grupos políticos de extrema direita que derivam na agudização de políticas e atitudes xenófobas que incluem o fechamento de fronteiras e a negação de asilo às pessoas refugiadas.
Frente a esse contexto internacional desalentador, nós militantes da Marcha Mundial das Mulheres continuamos percorrendo o caminho de construção de nossas alternativas feministas. Continuamos tecendo alianças com outros movimentos aliados com os quais compartilhamos uma visão comum. Continuamos apoiando a luta local de nossas companheiras que lutam em defesa da sustentabilidade da vida.
Sabemos que juntas somos mais fortes, e que juntas contruimos um movimento mundial incontornável, com capacidade para transformar muitas coisas. Por isso em nosso próximo Encontro Internacional vamos trocar nossas experiências de luta e resistência, aprofundar nossa reflexão conjunta, avaliar nossa Quarta Ação Internacional, nos organizaremos para nosso futuro como movimento e recarregaremos as energias para continuar nossa luta e nossa resistência.
Resistiremos, a partir das bases, aos embates do capitalismo patriarcal, racista e colonialista.
Resistiremos como nossa companheira Berta Cáceres, de Honduras, lider indígena e defensora incansável dos direitos das comunidades originárias em defesa de seus territórios, que neste mês foi brutalmente assassinada em sua casa.
Resistiremos como Pakize Nayir, Fatma Uyar e Sêve Demir, as companheiras curdas que foram presas e assassinadas pelas forças de segurança do governo turco.
Resistiremos como Máxima Acuña e Dina Mendoza que, no Peru, seguem enfrentando a brutalidade de uma mineradora transnacional que ameaça a água e as terras de suas comunidades.
Resistiremos como muitas outras mulheres de todo o mundo, anônimas, que a cada dia, desde suas casas e comunidades, lutam por seus direitos e em defesa de outras mulheres.
Seguiremos resistindo sempre! As armas, o poder patriarcal e opressor não vão nos calar!
8 de março de 2016

As reflexões e práticas feministas caminham juntas

As reflexões e práticas feministas caminham juntas

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*Por Tica Moreno e Nalu Faria
O feminismo que se orienta pela construção de um mundo no qual a igualdade seja um princípio organizador costuma sempre alertar que as conquistas das mulheres não percorrem um caminho linear. Nos anos 1990, quando prevalecia uma visão triunfalista sobre os direitos das mulheres, sobretudo em espaços internacionais pautados pelas Nações Unidas, alertamos que o mercado estava reorganizando a vida das mulheres e isso nos colocava novos desafios . Nos anos 2000, mudar o mundo e mudar a vida das mulheres, ao mesmo tempo, foi a visão que orientou a construção de agendas políticas que colocaram o feminismo no centro das lutas contra o neoliberalismo e o livre comércio na América Latina. Para isso, as mulheres se posicionaram no debate econômico ao reivindicar a valorização do salário mínimo como uma agenda feminista e impulsionaram uma ofensiva contra a mercantilização do corpo e da vida das mulheres baseada na auto-organização, na retomada da mobilização e em práticas feministas de ocupação de espaços públicos, com batucadas e intervenções urbanas. A diversidade das mulheres que protagonizaram estes processos é sem dúvida uma marca da construção deste feminismo anti-sistêmico, não institucionalizado e militante no Brasil.
Olhar para esse processo de construção nos ajuda a refletir sobre o momento em que vivemos hoje. Ao longo de 2015, a Marcha Mundial das Mulheres realizou sua quarta ação internacional. No Brasil, a ação se realizou de forma descentralizada passando por 10 estados diferentes, conectando as resistências das mulheres frente ao avanço do capitalismo patriarcal sobre os nossos corpos, trabalho e territórios. Com o eixo “Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres”, esta foi uma ação de formação política e mobilização para denunciar as causas que nos oprimem e nos discriminam como mulheres em todo o mundo. Descentralizada, a quarta ação permitiu fortalecer as resistências e alternativas das mulheres, conectando a resistência das indígenas contra o genocídio e o agronegócio no Mato Grosso do Sul, com a das trabalhadoras rurais que enfrentam a mineração em Minas Gerais. Também conectou as estratégias das mulheres para garantir a autonomia sobre seu corpo no Rio Grande do Sul, ao enfrentamento à violência sexista no Ceará e na Paraíba; a construção da agroecologia no Rio Grande do Norte se conectou com a luta por autonomia econômica em São Paulo e a denúncia da exploração do trabalho das mulheres pelas empresas transnacionais nas 24 horas de solidariedade feminista.
Este também foi o ano em que a Marcha das Margaridas reuniu mais de 70 mil mulheres do campo, das águas e da floresta em sua quinta edição, afirmando que a crise não se resolve com ajuste e sim com mais investimento na geração de igualdade e políticas públicas. Pouco tempo depois, o feminismo ocupou as ruas de muitas cidades para denunciar o conservadorismo misógino que toma conta do Congresso Nacional, e a Marcha das Mulheres Negras levou novamente o feminismo para as ruas de Brasília. Ainda que algumas análises sobre essas recentes lutas feministas insistam em dizer que esse é um fenômeno novo, é inegável que trata-se de um processo de acúmulo político do feminismo que conecta diferentes gerações políticas e diversas mulheres em movimento.
Em luta por autonomia sobre nossos corpos e nossas vidas, já denunciávamos a onda conservadora que se intensificou neste ano, e estas mobilizações permitem afirmar que a resistência que já estava em construção também se intensificou.
Olhar para as iniciativas legislativas facilita a compreensão de que o conservadorismo está em uma ofensiva articulada, que passa pela retirada dos direitos com a terceirização, pela legitimação do encarceramento e genocídio da juventude negra com a redução da maioridade penal, pelo avanço do capital sobre os territórios do novo código mineral ou dos entraves colocados pelo agronegócio à demarcação das terras indígenas, pela criminalização das mulheres em todas as iniciativas reacionárias referentes ao aborto, pelo reforço da heteronormatividade e da divisão sexual do trabalho com o estatuto da família, e a lista poderia ir além. Essas iniciativas legislativas se encontram conectadas a expressões do conservadorismo na sociedade, seja na banalização da violência nos espaços públicos e privados, do controle e mercantilização do corpo e da sexualidade, no individualismo e consumismo como norma.
O feminismo há muito tempo tem contribuído para uma compreensão ampliada da política para além da institucionalidade, e da economia para além do mercado. Já sabemos que a história como é contada, a notícia como é produzida, a teoria como é sistematizada costuma ser enviesada e ter como referência a experiência de uma pequena parcela de homens da elite, em sua maioria brancos, para sedimentar uma visão de mundo que exclui uma parcela grande da população do poder, da fala, do lugar de sujeitos. Corremos o risco de que visões estreitas sobre o conservadorismo, mesmo na esquerda, secundarizem ou ocultem os ataques que as mulheres, a população negra, as lésbicas, gays, bissexuais e transexuais vem sofrendo, assim como o risco de que a força de suas resistências não sejam reconhecidas como fundamentais para enfrentar os retrocessos que ameaçam a nossa sociedade de forma geral.
(…)
A cultura feminista como estratégia de ocupação dos espaços públicos pelo feminismo irreverente e criativo também foi uma marca da quarta ação internacional da Marcha Mundial das Mulheres neste ano. As praças de diversas partes do Brasil foram ocupadas: por mulheres latino-americanas que cantaram e batucaram em luta pela legalização do aborto na fronteira do Brasil com o Uruguai, por mulheres negras que ocuparam as praças contra a violência e a militarização da vida e dos territórios no Rio de Janeiro, e na Virada Feminista Agroecológica e Cultural que afirmou, em Mossoró, no Rio Grande do Norte o mundo que as mulheres já estão construindo, costurando resistências, reflexões e práticas de transformação feminista.
As reflexões e práticas caminham juntas: as mulheres resistem e, a partir destas resistências cotidianas, distribuídas mas também conectadas constroem experiências concretas de transformação feminista.

*Tica Moreno e Nalu Faria são militantes da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo e compõem a equipe da SOF Sempreviva Organização Feminista. Este texto foi extraído da introdução da edição de 2015 dos Cadernos Sempreviva, intitulado “Reflexões e práticas de transformação feminista” e disponível para download.

domingo, 6 de março de 2016

Agenda feminista em tempos de ataques, ameaças e retrocessos

por Maria do Carmo Bittencourt*
 
Neste o 8 de março de 2016, o movimento de mulheres e feminista costuma reavaliar suas bandeiras de luta para o próximo período. Depois de um ano, onde vimos os direitos das mulheres, da juventude e dos trabalhadores e trabalhadoras duramente atacados por projetos retirados das “gavetas” mais obscuras do Congresso Nacional.  2015 , ano em que a mídia atacou, e continua atacando, duramente a ordem democrática do governo recém-eleito, numa aliança com as elites locais e internacionais com objetivos de administrar a crise econômica internacional com a crise política e institucional, distribuindo assim as perdas pelas classes médias e populares e tornando a crise do capitalismo em mais uma forma de ganho.
Dentro desta análise de conjuntura, as feministas da Marcha Mundial de Mulheres apresentam nossas lutas históricas e respostas aos desafios colocados e recolocados na vida das mulheres.
Aborto legal, seguro e gratuito, garantindo o direito de decisão autônoma das mulheres. Com o debate da microcefalia e a possibilidade de novas decisões do STF sobre abrir mais um caso de aborto legal por decisão judicial, as feministas retornam as ruas e rechaçam a redução do debate da legalização a uma ação de eugenia. Vemos faixas e cartazes pelo Brasil inteiro dizendo: Educação Sexual para decidir / Anticoncepcional para prevenir / Aborto Legal e Seguro para não morrer.
Apontamos também a centralidade da luta contra a Reforma da Previdência Social. Esta ameaça veiculada pela imprensa burguesa e, também, na fala concreta de setores do governo de que existe já uma reforma pronta e orientada pela visão do mercado. Defendemos que a Previdência Social seja universal, um direito de todos e todas não só dos que contribuem diretamente, solidária, amplie e se assente como uma forma de transferência de renda e inclusão social e redistributiva, como uma forma eficaz de redistribuir a riqueza acumulada dentro do sistema capitalista.
Para as feministas a liberdade e a igualdade só existem de verdade se atingir a todas e todos. A desigualdade e a violência andam juntas, isso é visível nos dados recentes de violência aqui no RS, apesar do número de casos de violência contra mulher terem diminuído (verdade Sartori?), vemos o número de assassinatos aumentando, em todas as cidades. Crescem os índices nos pequenos municípios ao mesmo tempo que diminuem os serviços públicos, muitas mulheres sofrem com a violência doméstica, assédio e com a sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidados, com o racismo, a falta de creches, de acesso a saneamento básico, moradia, alimentação adequada e transporte público de qualidade.
Somos mulheres em luta, em marcha e mobilizadas contra a violência machista no campo e nas cidades, nas casas, nas ruas, nas empresas e roçados, em luta para compartilhar o trabalho doméstico e pela socialização dos cuidados. Em luta por autonomia econômica e social, para romper as engrenagens do patriarcado, do racismo e do capitalismo, estruturas que andam juntas, coordenadas e articuladas num sistema complexo de dominações que e exigem de nós muita clareza e a construção de novas alianças e formas de lut.

 Maria do Carmo Bittencourt é militante da Marcha Mundial das Mulheres e Assessora da Rede de Economia Solidária e Feminista
Publicado no JornalismoB