quarta-feira, 26 de agosto de 2026

MMM-RS na Audiência Pública Contra os Impactos da CMPC




No dia 10 de agosto de 2026, aconteceu a segunda audiência pública contra os impactos da empresa chilena de celulose CMPC no nosso território. Como desta vez não teve a presença da empresa na conversa, foi um espaço muito mais democrático e participativo, sem as mentiras e falácias apresentadas pela CMPC. A MMM faz parte junto com 30 entidades do comitê técnico que analisa e revela essas falsidades. 


Mais especificamente, a audiência foi sobre a nova fábrica que a empresa quer construir em Barra do Ribeiro, que vai emitir mais efluentes que a população de Porto Alegre inteira e usar 280 milhões de litros de água limpa por dia. Isso é uma quantidade de água do Guaíba tão grande que, em um ano, teria usado o equivalente de toda a água do nosso manancial para abastecimento público.


Na audiência, a companheira Letícia Paranhos, da MMM-RS e Amigas da Terra Brasil, afirmou que, para além dos direitos à consulta, temos que ter o direito de dizer ‘não’ à construção de megaprojetos em nosso território. Precisamos ser escutadas e ter força para barrar o que não concordamos. 


Nós, da Marcha Mundial das Mulheres, entendemos a mercantilização da natureza como o processo de transformação dos nossos bens comuns em mercadoria – como a água, a terra, as sementes, as florestas. Junto à expansão desse processo, a financeirização da natureza transforma partes da natureza em ativos para serem negociados no mercado financeiro, onde seus rendimentos são uma fonte permanente de receita para quem detém este ativo. Isso faz parte da expansão da geração de renda pela especulação do mercado financeiro que intensifica a acumulação de capital. 


As múltiplas crises que vivemos são resultado do modelo de desenvolvimento capitalista, patriarcal, racista e heteronormativo, que explora e mercantiliza as vidas, corpos e territórios das mulheres. A mesma dinâmica acontece com a natureza, entendida como recurso inesgotável a serviço do lucro de empresas. Os mecanismos de mercantilização e financeirização da natureza já se concretizaram e fazem parte da “economia verde”, por meio de políticas governamentais e empresas privadas que só intensificam a crise ambiental. Por isso nos organizamos numa luta permanente contra a apropriação da vida pelo capital. 


Além disso, o nome do ‘Projeto Natureza’ faz parte de uma estratégia de marketing, que manipula e se apropria de termos que utilizamos. Para maquiar a destruição que fazem, roubam as palavras usadas por nós e se nomeiam ‘defensores da natureza’. Tudo isso com muito dinheiro investido em redes sociais e páginas de jornais.


Precisamos defender o Lago Guaíba e ecoar pela Pampa que eucalipto não é floresta. As empresas transnacionais se aproveitam de momentos de crise para fortalecer a arquitetura de impunidade. Como nas enchentes de 2024 quando, em vez de discutirem sobre fortalecer os abrigos, cozinhas solidárias e creches comunitárias, passou na Assembléia Legislativa uma flexibilização da legislação ambiental deixando de considerar a silvicultura como uma atividade econômica de impacto. 


Silvicultura é o cultivo de monoculturas de eucalipto que tentam nos enganar chamando de floresta. Ou seja, mesmo em momentos que a população mais precisa, partidos de direita se aproveitam da instabilidade para aprovar leis que possibilitam devastar ainda mais a natureza e lucrar com essa destruição. Mas nós sabemos muito bem que a silvicultura destrói o nosso bioma. 


Já passam de 500 mil hectares de eucaliptos plantados sem consulta à população dos territórios que recebem tais plantios no Rio Grande do Sul. Como disse Liane Beatriz de Ávila, do Quilombo Von Bock (São Gabriel), a instalação da empresa CMPC em seu território reduziu empregos da população local e fez essas pessoas migrarem para a cidade. Depois, cercou o território e restringiu acesso a bens comuns, destruindo modos de organizar a vida que dependem da Pampa. Hoje, a maior parte da área do Quilombo Von Bock pertence à CMPC Celulose, e não há mais água potável, nem sinal de telefone, nem a linda vista restou, porque virou um deserto verde, cheio de eucaliptos num solo pouco fértil. 


A Pampa é o menor bioma do Brasil, ainda assim um dos mais devastados. Nossos bens comuns estão sendo contaminados pelos venenos usados nas monoculturas de arroz e soja, mineração, barragens e silviculturas de eucaliptos. Na audiência, a liderança do Quilombo Ibicuí da Armada, Maria Leci, nos explicou as ameaças que as comunidades que dependem da natureza enfrentam com a expansão de empresas transnacionais. Ela disse: 


O eucalipto está trazendo pressão sobre os nossos territórios, principalmente para as comunidades quilombolas e indígenas que estão na área rural, com desmatamento, destruição das nascentes, tirando a biodiversidade do campo, não se pode ter um animal debaixo dos eucaliptos, expandindo queimadas e nos tirando a água potável. Além disso, a demora na regularização dos nossos territórios vai nos tirando do nosso espaço.”


São comunidades que vivem sendo parte da natureza, plantando o seu alimento, cuidando das nascentes, reciclando o lixo, fazendo compostagem e produzindo o bem-viver. Modos de vida que muito nos inspiram a pensar fora dos emaranhados desse sistema capitalista patriarcal-racista, a partir de onde vivemos. 


A CMPC está investindo 27 bilhões nessa nova fábrica e ofereceram 50 milhões para as comunidades indígenas. Como povos originários enfrentam empobrecimento econômico, muitos aceitaram essa quantia, que para pessoas indígenas é muito, enquanto para a empresa é muito pouco. As lideranças da Aldeia Pindó Mirim, Arnildo e Gabi, disseram que a consulta com os povos indígenas não foi feita corretamente porque não deram espaço para o diálogo, nem tempo para tomadas de decisões. Povos indígenas têm o direito de fazer negociações nos seus tempos. O ritmo da vida e dos tempos indígenas são diferentes e isso tem que ser respeitado.  


A nova fábrica, caso seja implantada, vai lançar na água do Guaíba o efluente AOX (Compostos Organohalogênicos Adsorvíveis) e dioxinas, que são subprodutos tóxicos gerados principalmente pelo branqueamento do papel. Isso vai contaminar a água e o solo, aumentando em 443% essas toxinas nos sedimentos do Lago por mais de cem anos. Não podemos deixar que essa nova fábrica seja construída, pois os danos serão imensos e duradouros. 


Desde 2020, a experiência de luta coletiva que barrou o projeto “Mina Guaíba” de mineração de carvão em Charqueada, que também ignorava os povos e comunidades da região e colocava em risco a água do Guaíba, nos inspira a seguir mobilizando e nos organizando na defesa dos bens comuns e dos territórios contra as empresas transnacionais.


A audiência foi bastante informativa. Se estiveres curiosa, vai lá no Facebook da Sofia Cavedon para vê-la completa : https://www.facebook.com/share/v/1DgAfTBqL8/ 


Seguiremos em marcha pela Pampa, pelo fim das monoculturas e contra quem destrói os nossos bens comuns! Em defesa do Lago Guaíba, ecoamos pela Pampa que eucalipto não é floresta! 


Seguiremos em marcha até que a sustentabilidade da vida esteja no centro de todas as políticas! Até que todas sejamos livres!












sexta-feira, 31 de julho de 2026

Artigo: O papel do SUS no enfrentamento às violências contra as mulheres


O papel do SUS no enfrentamento às violências contra as mulheres

Por Gabriela Cunha e Cláudia Prates


Entendemos que a violência contra as mulheres e o feminicídio não acontecem de forma isolada. Eles são ferramentas estruturais de poder, controle e hierarquia que sustentam a desigualdade na sociedade

Para nós, o enfrentamento a essa violência passa necessariamente por compreender que estamos falando também de Justiça Reprodutiva. 

Temos o direito de decidir sobre nossos corpos, o direito de não ter filhos, e o direito de criar nossos filhos com segurança e dignidade. 

Sabemos que o racismo estrutural determina quais corpos são mais vulnerabilizados e quem mais sofre com a desassistência. 

O SUS, portanto, não é apenas um executor de políticas, ele é o território fundamental de liberdade e autonomia das mulheres. É um instrumento para chegar aonde outros serviços não chegam. É a primeira porta por onde uma mulher, adolescente ou uma criança chega e pode detectar sinais de que ali tem um corpo que pede socorro. 

O SUS, além de porta de entrada, é também garantia de direitos!


O SUS só amplia sua capacidade de prevenir o feminicídio quando entende a Atenção Primária como um espaço de escuta qualificada. E isso exige, a qualificação das relações entre os/as profissionais e as mulheres, para que o respeito, a privacidade e a autonomia seja a base dos atendimentos. 

Nós precisamos deixar muito nítido para a sociedade e para as nossas equipes que o SUS não é polícia. Que o papel do SUS não é julgar ou punir, mas sim cuidar e proteger. 

Para cuidar e proteger, precisamos primeiro identificar sinais de violência, muitas vezes sinais sutis e naturalizados como normais nessa sociedade machista. Esses sinais muitas vezes se manifestam de forma silenciosa através de transtornos mentais, sofrimento psíquico, doenças crônicas inexplicáveis, queixas recorrentes.

Mas como fazer a identificação precoce desses sinais? É na construção de uma relação de confiança. 

Preencher a ficha de notificação compulsória é muito importante, mas o essencial é garantir que essa mulher se sinta segura para falar. 

Outro importante sinal de violência é a presença de parceiros intrusivos que tentam controlar a fala das mulheres. E aqui cabe um manejo ético das nossas equipes: mesmo que a mulher tenha o direito legal de estar com um acompanhante, se há esses sinais de alerta, precisamos criar mecanismos estratégicos de escuta separada

Esse momento a sós é fundamental para que ela possa falar sem medo, seja para relatar uma violência contra si mesma ou contra seus filhos. 

É a partir desse espaço protegido que a profissional de saúde consegue dar sequência aos encaminhamentos — o que pode incluir, por exemplo, o acesso ao aborto legal, caso se identifique ali uma gestação que é fruto de uma violência sexual. 

E, além dos encaminhamentos conforme definidos pelas equipes, também pode se conseguir romper com ciclos de violência quando a rede de proteção estatal é acionada junto ao acolhimento sem julgamento,  onde saídas são apresentadas às mulheres 

Assim, a partir das relações dentro do SUS, a gente pode sim enxergar, de forma conjunta, uma outra forma de viver sem violência.


Para fortalecer essa rede, precisamos propor rastreios qualificados e sensíveis desses sinais como parte da rotina de atendimento da nossa rede básica. 

Isso inclui, de forma inegociável, informar sobre o direito ao acesso ao aborto legal previsto em lei, como um cuidado de saúde, livre de preconceitos e barreiras.

Não podemos ignorar que o racismo estrutural opera dentro dos serviços de saúde, fazendo com que o julgamento e a negação de direitos recaiam com ainda mais violência sobre as mulheres e meninas negras. 

E aqui, reforçamos, de forma muito séria, os casos de crianças e adolescentes, que têm informações sonegadas quando não ofertamos a possibilidade prevista em lei ao aborto legal, levando à perda violenta da infância. 

A violência corrói a saúde mental dessas mulheres de forma devastadora. 

Quando acolhemos alguém nessa situação, o papel da profissional deve ser o de apoiar a mulher a identificar suas próprias necessidades e planejar, de forma conjunta, algo como um "plano terapêutico singular" que seja viável. Mas MUITO importante: o plano tem que ser construído com ela, porque a decisão final sobre qual caminho seguir, quando e como dar o próximo passo, pertence única e exclusivamente à própria mulher. 


Precisamos também dizer que essa engrenagem de cuidado só se sustenta se olharmos para quem está na ponta do serviço

Cuidar de quem cuida exige uma política séria de atenção à saúde mental das profissionais de saúde, combatendo o esgotamento que a sobrecarga e o contato diário com os traumas impõem às nossas equipes. 

Não há humanização no atendimento sem a devida proteção da saúde mental das trabalhadoras e trabalhadores do SUS. 


Reforçamos que não queremos um SUS que apenas 'encaminha'. Queremos um SUS que garanta a proteção integral em rede, onde a “articulação intersetorial” tenha como centralidade a vida, e não processos engessados que travam melhorias. 

E como os movimentos sociais podem ajudar? Qual nosso papel?

Os movimentos sociais, como a Marcha Mundial das Mulhere, o Fórum do Aborto Legal RS e outros movimentos aliados, são e caminham lado a lado com as comunidades, atuando como um termômetro das políticas. 

Mais do que ocupar esses espaços, nós somos parte viva desta rede e construímos o controle social no dia a dia. 


Trazemos 5 grandes pontos que defendemos que uma agenda permanente de enfrentamento à violência contra as mulheres no SUS precisa ter:

  1. Formação contínua e integrada com as universidades:  Precisamos fortalecer parcerias com as instituições de ensino para garantir a educação permanente sobre racismo estrutural, desigualdade de gênero, identificação das violências e direitos reprodutivos.

  2. Monitoramento coletivo da rede de atenção, garantindo que as políticas cheguem às mulheres nas periferias e nas áreas rurais.

  3. Precisamos enfrentar esse modelo que terceiriza os serviços e privatiza cada vez mais o nosso SUS: Sabemos da alta rotatividade de profissionais nos serviços e do enorme volume de pessoas atendidas diariamente. 

Na cidade de Porto Alegre, por exemplo, não vamos conseguir garantir capacitação continuada dos nossos trabalhadores e trabalhadoras, e nem promover vínculos de confiança delas com as mulheres, com mais de 95% das nossas unidades básicas privatizadas. 

A troca constante de empresas e de profissionais vai na contramão de um SUS que enfrenta as violências contra as mulheres.

4) Rastreio sensível e tático dos sinais de violência, como parte integrante da rotina de atendimento da rede básica.

Isso tem que ser feito em conjunto com demais órgãos responsáveis pela rede de proteção, sem revitimizar ou violentar sistematicamente as mulheres. 

5) Fortalecimento dos conselhos de saúde como espaços reais de debate e construção coletiva.


Diante de forças que ameaçam o SUS, nossa resposta é o acolhimento, o olho no olho, a escuta, a resistência e o fortalecimento do maior sistema público e gratuito de saúde do mundo. 

A garantia da Justiça Reprodutiva e o fim da violência contra mulheres e meninas não cabem em promessas de campanha. 

Cuidar da cidade, do estado e do país é garantir que as mulheres vivam sem medo, e isso exige orçamento real e o compromisso coletivo de transformar a rede de proteção em uma política de Estado permanente, e imune aos calendários eleitorais e as ameaças, como vimos acontecer na pandemia ou nas enchentes.

Como base viva desse movimento, seguimos presentes e vigilantes. 

Queremos ter a certeza de que o SUS continuará sendo a nossa casa, o nosso espaço de autonomia e nosso maior aliado na defesa de vidas livres de violência.


Seguiremos em Marcha até que todas sejamos livres da violência que tenta nos aprisionar e nos calar todos os dias. 

Nenhuma mulher a menos. Por todas nós.


Registros da militante da MMM, Gabriela Cunha como palestrante convidada na mesa Agenda Estratégica contra o Feminicídio: o papel do SUS no enfrentamento às violências contra as mulheres, durante o XXXIX Congresso do Conasems, no dia 14 de julho de 2026.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

MMM participa da Feira da Cidadania em Porto Alegre e denuncia a destruição ambiental, a mercantilização da natureza e o desmonte das políticas públicas!


No dia 19 de Junho aconteceu em Porto Alegre a Feira da Cidadania, organizada pela Secretaria Geral da Presidência da República, órgão central nas articulações do governo com movimentos e organizações populares. Abaixo está a fala que a nossa companheira Any Moraes, da MMM RS e Coletivo Periferia Feminista, compartilhou:


Falo em nome da Marcha Mundial das Mulheres e das mulheres que sustentam a vida nos territórios populares do Rio Grande do Sul.


Para nós, as mudanças climáticas não pode ser separada das desigualdades produzidas por um modelo econômico que concentra riqueza e transfere para as mulheres a responsabilidade pelo cuidado e pela sobrevivência. Justiça climática exige enfrentar as desigualdades de gênero, raça e classe e colocar a sustentabilidade da vida no centro das políticas públicas.


O que vivemos no Rio Grande do Sul não foi apenas resultado das chuvas extremas. Foi também consequência de anos de negligência, fragilização das políticas públicas, da falta de planejamento e da ausência de participação das comunidades na construção das respostas. 


Denunciamos há muitos anos que a destruição ambiental, a mercantilização da natureza e o desmonte das políticas públicas atingem de forma mais dura as mulheres, especialmente as mulheres negras, periféricas, indígenas, camponesas e chefes de família. E quando a crise climática encontra a desigualdade social, os impactos são muito mais profundos.


Por isso, o principal desafio que temos hoje não é apenas reconstruir o que foi destruído. É preparar os territórios para os eventos extremos que continuarão acontecendo.


Para isso, a adaptação climática e a gestão de riscos precisam ser construídas com participação popular. Os planos de contingência, os sistemas de alerta, as estratégias de prevenção e os investimentos públicos devem dialogar com quem vive nos territórios e conhece sua realidade. As soluções estão no território! 


É fundamental reconhecer as organizações comunitárias como parte estruturante da gestão de riscos e da adaptação climática!


Essas experiências precisam deixar de ser vistas apenas como ações emergenciais e passar a ser reconhecidas como parte permanente das políticas públicas. 


Defendemos a criação de mecanismos permanentes de formação, participação e articulação dessas lideranças na governança da adaptação climática e da gestão de riscos.


Falar em prevenção também significa enfrentar as causas da crise climática. Não podemos discutir adaptação sem discutir a emissão de gases de efeito estufa e os impactos de grandes empreendimentos sobre os territórios. 


Aqui no RS temos o caso da CMPC, com ausência de consulta adequada às comunidades indígenas e pelos impactos desconsiderados, e isso reforça a necessidade de alinhar desenvolvimento econômico, justiça ambiental e proteção dos bens comuns. 


O Brasil precisa construir uma cultura permanente de prevenção, preparação e resposta organizada às emergências climáticas. Não podemos continuar atuando apenas depois que a tragédia acontece. É preciso fortalecer a capacidade dos territórios, das comunidades e do poder público para agir antes, durante e depois dos desastres. 


Experiências internacionais, como a das nossas companheiras cubanas na preparação comunitária para desastres, demonstram que comunidades organizadas salvam vidas, reduzem perdas e fortalecem a capacidade de resposta diante das emergências.


A solidariedade e o trabalho voluntário salvaram vidas no Rio Grande do Sul, mas solidariedade não substitui política pública. É preciso de orçamento! 


Não haverá adaptação climática sem justiça social. E não haverá justiça climática sem a participação dos povos organizados na construção das soluções.


Seguiremos em marcha, até que todas sejamos livres!

 




quarta-feira, 6 de maio de 2026

24 de abril: Dia de Solidariedade Contra o Poder Corporativo. Denúncia contra a CMPC Celulose!


Os donos das empresas transnacionais buscam transformar tudo em mercadoria: a terra, a água, os saberes, os territórios, o trabalho, a própria vida. Até mesmo florestas e matas nativas, que, depois de devastadas, são transformadas em ‘plantios industriais de árvores’, como os milhões de hectares de eucaliptos pelo estado do Rio Grande do Sul. 


Quem vê árvore, não vê floresta, nem campo. Acreditamos que o termo que melhor descreve esses monocultivos são ‘desertos verdes’, por conta da destruição que há do solo, das águas e da biodiversidade. Aliás, a vegetação nativa e biodiversa que equilibra os fluxos ecológicos é posta abaixo, e o solo sofre de erosão e assoreamento dos rios. Em tempo de chuvas fortes é bom lembrar: esse processo também aumenta a chance de inundações e secas extremas. 


As consequências desses plantios de eucalipto são múltiplas, e também gera um alto consumo de água e um impacto nas águas superficiais e subterrâneas. Ao contrário dessa lógica do capital, defendemos que bens comuns não são mercadoria. Chamamos de bens comuns a água que bebemos, a terra fértil, a comida boa, os biomas, as sementes nativas, as sabedorias construídas coletivamente e conhecimentos compartilhados, a educação, a saúde, a energia, a comunicação e os meios de transporte. Em poucas palavras, os bens comuns são tudo o que é indispensável para a sustentabilidade da vida, são parte do que somos e não devem ser explorados para o acúmulo de riquezas do capital!


O avanço das transnacionais sobre os territórios é sistemático, ou seja, ocorre de forma semelhante independentemente do setor. A chegada dessas empresas, com grande número de trabalhadores homens, representa uma ameaça para meninas e mulheres das comunidades, ao intensificar a exploração sexual e a prostituição — muitas vezes articuladas pelas próprias empresas, que também estabelecem alianças com o crime organizado para controlar o território. 

No caso da fábrica da CMPC Celulose em Guaíba, casos de vazamento de cloro já intoxicaram a população, além do cheiro constantemente insuportável que causa enjoos e até dores de cabeças nas pessoas que residem ou ocupam espaços mais próximos, como escolas e comércios. Outra questão, é avanço de expansão das áreas da fábrica, incidindo no plano diretor, na mobilidade urbana, no meio ambiente e relações das pessoas com o território, dividindo uma parte que antes era de fácil acesso, para ampliar a área de reserva de madeira para a produção em nome de um "desenvolvimento" que não gera de fato impacto real em melhorias socioeconômicas da população e no meio ambiente. Além do mais, acaba que das possibilidades profissionais dos jovens viram o sonho familiar de trabalho na fábrica, onde cursos técnicos, como instrumentalização e química com ênfase em celulose e papel, se tornam comuns para criação de mão de obra local, que se acomoda ao trabalho e as condições invisíveis da insalubridade posta pela indústria.


Nos últimos anos, o capitalismo se reorganizou nesse processo, adotando a fusão de grandes corporações como estratégia para concentrar poder. Essas fusões fortalecem chantagens e alianças com Estados, governos, bancos e instituições internacionais, ampliando a exploração dos territórios. Ao mesmo tempo, mantêm o discurso de “desenvolvimento” para a América Latina, enquanto destroem a natureza, as comunidades e aprofundam as divisões sexual, racial e internacional do trabalho, como se observa em setores como mineração, agronegócio, energia e digitalização.

Nós, mulheres do Rio Grande do Sul, denunciamos a CMPC Celulose que expande suas fábricas e destroem o Pampa. Também denunciamos as contratações para a reconstrução das cidades de empresas que historicamente desrespeitaram populações, movimentos e universidades locais. Nesse marco de dois anos das enchentes, repudiamos como a falta de consideração das experiências acumuladas pelos movimentos, como as cozinhas solidárias, prejudica a reconstrução. Queremos o reconhecimento que os trabalhos do dia a dia das mulheres na periferia são fundamentais para sustentar a vida e queremos que isso faça parte das políticas públicas. Mais que isso: queremos um sistema que seja centrado nos cuidados e nos trabalhos que são realmente necessários para o bem-viver de toda a população.


Marcha Mundial das Mulheres RS e Amigas da Terra Brasil.












quarta-feira, 19 de outubro de 2022


 

Nota da Marcha Mundial das Mulheres contra a pedofilia

A naturalização da violência contra meninas e mulheres nos indigna. Foi com indignação que acessamos o conteúdo da entrevista concedida por Jair Bolsonaro ao podcast e canal do Youtube “Paparazzo Rubo-Negro”. Na entrevista, o atual presidente do país afirmou que, em certa ocasião, ele estava andando de moto por Brasília, avistou meninas em uma esquina e que, após “pintar um clima”, teria pedido para entrar na casa delas. De acordo com ele, elas tinham em média 14 anos e eram “bonitinhas”.


Dando sequência à história, o candidato à reeleição diz que, ao entrar na casa, ele encontrou outras garotas na mesma faixa etária, que seriam venezuelanas. Bolsonaro ainda sugere que elas estavam arrumadas, em um sábado de manhã, porque supostamente fariam programas.


Após a repercussão negativa do caso, Michelle Bolsonaro disse que Jair Bolsonaro costuma utilizar a expressão “pintou um clima” para tudo, em uma clara tentativa de mascarar a gravidade da situação e descaracterizar sua atitude. Contudo, de acordo com as notícias, em nenhuma das 128 lives feita por ele a expressão foi usada.


Um “clima” com meninas de 14 anos tem um nome e é crime: pedofilia. A pedofolia é um problema grave no Brasil, que atinge meninas e meninos. Sabemos que a sexualização de meninas, entretanto, é uma violência ainda mais recorrente. Da indústria pornográfica que utiliza imagens infantilizadas à adultização sexualizada de meninas, a mensagem que as relações patriarcais transmitem à sociedade é que elas podem e devem estar disponíveis como objetos de consumo.


Sabemos também que a pobreza, o racismo e outros fatores de vulnerabilização social aumentam o risco de diversos tipos de violência. Na entrevista, Jair Bolsonaro se refere a uma série de meninas venezuelanas, em um país estrangeiro. Uma situação de vulnerabilidade sobre a qual ele, enquanto presidente, tem enorme responsabilidade. Ao invés de assumi-la, ele tem atitudes e falas perversas como a que vemos nessa ocasião.


Se Bolsonaro desconfiou que elas iriam “ganhar a vida”, utilizando suas palavras, era o seu papel denunciar e tomar providências para que a situação fosse corrigida. Prostituição infantil é crime no Brasil, sujeito à pena de até 20 anos.


O episódio repugnante se soma às inúmeras declarações machistas, racistas, violentas, preconceituosas e criminosas que Jair Bolsonaro fez durante sua vida política, em especial nos últimos quatro anos, na condição de presidente.


No dia 30 de outubro, vamos às urnas votar pelo fim desse governo e pelo combate ao bolsonarismo: o movimento conservador e criminoso que assola o país e a vida de meninas e mulheres. Vamos eleger Lula presidente e construir um projeto popular, feminista e antirracista para o Brasil. Um projeto em que meninas são protegidas, não violentadas.


Nas ruas, estamos e seguiremos permanentemente em marcha. Até que sejamos livres de todas as formas de violência!


19 de outubro de 2022,

Marcha Mundial das Mulheres.

sexta-feira, 18 de março de 2022

Nota pública de repúdio da Marcha Mundial das Mulheres contra a Casa de Eventos Provocateur Poa, por atitude RACISTA e MACHISTA contra uma jovem negra

 


 

A Marcha Mundial das Mulheres do Rio Grande do Sul vem expressar seu veemente repúdio à forma racista e machista expressa pela Casa de Eventos Provocateur Poa, localizada rua Silva Jardim, bairro Mont Serrat, em Porto Alegre/RS, contra uma jovem negra de 18 anos, estudante de Direito na FMP (Fundação Escola Superior do Ministério Público), ocorrido na última sexta-feira, dia 11 de março. Mesmo no mês que marca da luta e resistência das mulheres, mais uma jovem sofreu com o racismo e o machismo estruturais em um espaço que deveria ser para se divertir.

A jovem foi convidada por amigas para uma festa nesta casa de eventos onde permaneceu por quase 1 hora no camarote das amigas. A partir deste momento, um dos seguranças da casa a puxou pelo braço e disse que aquele espaço não era lugar para ela estar, e a retirou da casa dizendo que ela tinha que ir embora naquele momento. A jovem ficou muito assustada e nervosa ao perceber que ela foi a única jovem chamada a ir embora, uma jovem negra. Ela está realmente traumatizada com esta truculência machista e racista da qual foi vítima.

O patriarcado, o machismo e o racismo atuam baseados em comportamentos simbólicos, falas discriminatórias que mostram a gigante desigualdade em que as mulheres vivem, e que com as mulheres negras é ainda mais profunda.

O que ocorreu é violência racista e machista, que são estruturais em nossa sociedade, onde as mulheres negras tem sofrido desde a diáspora neste país e seguimos sofrendo. Mas não vamos nos calar, pois precisamos denunciar e dizer basta – chega!!!

A violência que sofremos no cotidiano não deve ser banalizada e precisamos estar unidas e denunciar estes estabelecimentos que desqualificam, humilham e agridem as mulheres negras. Precisamos lutar para que, em qualquer espaço, sejamos tratadas com respeito e dignidade. Temos o direito de estar onde quisermos, vestir o que quisermos - todas as mulheres têm o direito de se divertirem sem sofrer qualquer importunação ou opressão. Ninguém vai nos selecionar pela cor da nossa pele, por nossa orientação sexual ou pela classe social que pertencemos.

Nós mulheres lutamos contra o sistema capitalista-patriarcal-racista que nos condena ao espaço privado e nos exclui dos espaços públicos. Repudiamos toda forma de manifestação racista, machista e misógina que nos desconstrói como pessoas e nos oprimem.

Na semana do 8 de março, Dia Internacional de luta das Mulheres, quando milhares de mulheres estiveram nas ruas denunciando todas as formas de violência contra as mulheres negras, a enorme desigualdade entre homens e mulheres e exigindo condições iguais, nos deparamos com mais este ato de violência racista e misógina.

 

“Nos opomos a todas as formas de violência: no trabalho, em sindicatos, nas organizações políticas, em escolas, em bairros urbanos, comunidades e áreas rurais – onde quer que estejamos.” Declaração Internacional da Marcha Mundial das Mulheres para o 8 de março de 2022

 

 

Reafirmamos a liberdade, a igualdade, a justiça, a paz e a solidariedade como nossos valores fundamentais.

Nós, mulheres, devemos continuar em marcha,

Resistindo juntas, marchando juntas.

Resistimos para viver, marchamos para transformar!

 

MARCHA MUNDIAL DAS MULHERES

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Acolher, escutar, ajudar e não julgar

 



Por Cláudia Prates, Gabriela Cunha, Vanessa Gil e Patrícia Ferreira*


Ao invés de banalizar ou naturalizar a violência contra as mulheres, vamos acolher?

Por que escutar sem julgamentos deveria ser nossa primeira ação diante de uma denúncia de violência contra uma mulher?


A violência contra as mulheres é a maior expressão das desigualdades vividas em nossa sociedade, e a raiz disto tudo está neste sistema capitalista, patriarcal e racista que exerce controle, apropriação e exploração da vida, do trabalho, do corpo e da sexualidade das mulheres. 

Estamos diante de mais um 25 de novembro ** em que nós, as mulheres, viemos alertar a sociedade para esta herança maldita do machismo e da misoginia, produto desta opressão patriarcal/racista, que estrutura a subordinação das mulheres.

Não basta só nos indignarmos com o aumento da violência e a aparente falta de compromisso e omissão das instituições, dos governos e do sistema judiciário em erradicar a violência contra as mulheres e meninas, principalmente no Brasil. Assistimos o racismo e a intolerância serem protagonistas nas redes sociais e nos meios de comunicação - naturalizadas e banalizadas - e não conseguimos dar um basta a este cenário macabro.

Estamos enfrentando um governo federal que desmontou políticas públicas conquistadas pelo movimento feminista com muita luta, e que representa o conservadorismo que não suporta avanços de melhoria na vida das mulheres. Declaram abertamente seus ódios às mulheres e outros grupos sociais injustiçados e atacam as mulheres em espaços de poder através de ameaças e fake news.

Desde o golpe misógino sofrido pela presidenta Dilma em 2016 a rede de atendimento a mulheres vítimas de violência tem sofrido com corte de verbas e de descaso por parte do poder público. 

Durante os momentos mais críticos da pandemia de COVID, o número de casos de violência doméstica subiu exorbitantemente. Ou seja, a pandemia também foi de violência contra as mulheres, confinadas no lar com seus agressores e sem redes de atendimento capacitadas para lidar com essa demanda. 

Se perguntarmos de forma rápida nas ruas quais são as violências tipificadas em nossa legislação (Lei Maria da Penha e Lei do Feminicídio e  Lei do Racismo) a maioria irá acertar quase todos os tipos. Nenhuma violência pesa mais ou pesa menos em uma pessoa. Quando é violência ela já assume um fardo enorme a se carregar. E ninguém deve ser julgada pela violência que sofreu.  Parece uma frase estranha, e até óbvia, mas é isto que muitas relatam – são julgadas do porque estavam ali, vestia aquela roupa, responderam a uma mensagem ou tiveram algum contato com seu agressor. Isto é a transferência da responsabilidade do agressor para a vítima. 

A gente sabe que o machismo estrutural e a misoginia matam todos os dias, mas a banalização da violência nos mostra a triste realidade que marca a vida de muitas mulheres. Não uma banalização por pessoas desconhecidas, não! Acontece por pessoas do seu próprio círculo de relacionamento, amizade ou afeto. 

O debate sobre a violência contra as mulheres é permanente na agenda do movimento feminista onde realizamos formação sobre como as mulheres devem romper com o silêncio. Há uma grande dificuldade das mulheres quando se deparam com a violência, pois ela acontece pelas mãos de pessoas que eram do convívio e afeto delas. O silêncio das mulheres também é carregado de culpa, de vergonha e sentimento de humilhação. O medo do agressor e/ou de retaliação por parte de pessoas de seu círculo social e, ainda, por parte daquelas pessoas representantes do estado que deveriam fornecer proteção, é uma realidade nos casos de denúncia. Garantir espaços seguros e proteção efetiva é fundamental para que as mulheres possam seguir denunciando, o que faz parte da construção de políticas públicas de enfrentamento e erradicação da violência contra as mulheres, gerando dados, provas e relatos.

Mas para que a gente possa avançar na luta por uma vida sem violência primeiro precisamos desnaturalizar a violência sofrida pelas mulheres – não é normal, não é natural; segundo, construir espaços de auto organização das mulheres para que todas possam romper com o isolamento – e se sentirem mais protegidas.

Devemos lembrar ainda que o combate à violência é um compromisso de todos os movimentos, todos os dias, numa campanha permanente, não só das mulheres. E que quando uma mulher assume fazer a denúncia, nossa tarefa deve ser a da solidariedade, sem julgamentos. A palavra da mulher nunca deve ser desacreditada. 

Mesmo sabendo que estamos no caminho certo, também sabemos que ele é longo e difícil. Mas não podemos nos calar nem aceitar que tirem de nós o direito à indignação e à justiça.

Seguiremos em luta permanente contra o capitalismo patriarcal e racista, contra o fascismo, contra os feminicidios e o genocídio, assim como a todas as formas de violência contra as mulheres e meninas.


*Cláudia Prates, Gabriela Cunha, Vanessa Gil e Patrícia Ferreira são militantes feministas da Marcha Mundial das Mulheres RS.


** 25 de novembro foi escolhida como Dia Latino Americano e Caribenho contra a Violência à Mulher para homenagear as irmãs Mirabal, que foram assassinadas pela ditadura de Trujillo, na República Dominicana, em 1960. Desde 1981, o movimento feminista faz ações durante o mês de novembro para denunciar a violência sexista.