No dia 10 de agosto de 2026, aconteceu a segunda audiência pública contra os impactos da empresa chilena de celulose CMPC no nosso território. Como desta vez não teve a presença da empresa na conversa, foi um espaço muito mais democrático e participativo, sem as mentiras e falácias apresentadas pela CMPC. A MMM faz parte junto com 30 entidades do comitê técnico que analisa e revela essas falsidades.
Mais especificamente, a audiência foi sobre a nova fábrica que a empresa quer construir em Barra do Ribeiro, que vai emitir mais efluentes que a população de Porto Alegre inteira e usar 280 milhões de litros de água limpa por dia. Isso é uma quantidade de água do Guaíba tão grande que, em um ano, teria usado o equivalente de toda a água do nosso manancial para abastecimento público.
Na audiência, a companheira Letícia Paranhos, da MMM-RS e Amigas da Terra Brasil, afirmou que, para além dos direitos à consulta, temos que ter o direito de dizer ‘não’ à construção de megaprojetos em nosso território. Precisamos ser escutadas e ter força para barrar o que não concordamos.
Nós, da Marcha Mundial das Mulheres, entendemos a mercantilização da natureza como o processo de transformação dos nossos bens comuns em mercadoria – como a água, a terra, as sementes, as florestas. Junto à expansão desse processo, a financeirização da natureza transforma partes da natureza em ativos para serem negociados no mercado financeiro, onde seus rendimentos são uma fonte permanente de receita para quem detém este ativo. Isso faz parte da expansão da geração de renda pela especulação do mercado financeiro que intensifica a acumulação de capital.
As múltiplas crises que vivemos são resultado do modelo de desenvolvimento capitalista, patriarcal, racista e heteronormativo, que explora e mercantiliza as vidas, corpos e territórios das mulheres. A mesma dinâmica acontece com a natureza, entendida como recurso inesgotável a serviço do lucro de empresas. Os mecanismos de mercantilização e financeirização da natureza já se concretizaram e fazem parte da “economia verde”, por meio de políticas governamentais e empresas privadas que só intensificam a crise ambiental. Por isso nos organizamos numa luta permanente contra a apropriação da vida pelo capital.
Além disso, o nome do ‘Projeto Natureza’ faz parte de uma estratégia de marketing, que manipula e se apropria de termos que utilizamos. Para maquiar a destruição que fazem, roubam as palavras usadas por nós e se nomeiam ‘defensores da natureza’. Tudo isso com muito dinheiro investido em redes sociais e páginas de jornais.
Precisamos defender o Lago Guaíba e ecoar pela Pampa que eucalipto não é floresta. As empresas transnacionais se aproveitam de momentos de crise para fortalecer a arquitetura de impunidade. Como nas enchentes de 2024 quando, em vez de discutirem sobre fortalecer os abrigos, cozinhas solidárias e creches comunitárias, passou na Assembléia Legislativa uma flexibilização da legislação ambiental deixando de considerar a silvicultura como uma atividade econômica de impacto.
Silvicultura é o cultivo de monoculturas de eucalipto que tentam nos enganar chamando de floresta. Ou seja, mesmo em momentos que a população mais precisa, partidos de direita se aproveitam da instabilidade para aprovar leis que possibilitam devastar ainda mais a natureza e lucrar com essa destruição. Mas nós sabemos muito bem que a silvicultura destrói o nosso bioma.
Já passam de 500 mil hectares de eucaliptos plantados sem consulta à população dos territórios que recebem tais plantios no Rio Grande do Sul. Como disse Liane Beatriz de Ávila, do Quilombo Von Bock (São Gabriel), a instalação da empresa CMPC em seu território reduziu empregos da população local e fez essas pessoas migrarem para a cidade. Depois, cercou o território e restringiu acesso a bens comuns, destruindo modos de organizar a vida que dependem da Pampa. Hoje, a maior parte da área do Quilombo Von Bock pertence à CMPC Celulose, e não há mais água potável, nem sinal de telefone, nem a linda vista restou, porque virou um deserto verde, cheio de eucaliptos num solo pouco fértil.
A Pampa é o menor bioma do Brasil, ainda assim um dos mais devastados. Nossos bens comuns estão sendo contaminados pelos venenos usados nas monoculturas de arroz e soja, mineração, barragens e silviculturas de eucaliptos. Na audiência, a liderança do Quilombo Ibicuí da Armada, Maria Leci, nos explicou as ameaças que as comunidades que dependem da natureza enfrentam com a expansão de empresas transnacionais. Ela disse:
“O eucalipto está trazendo pressão sobre os nossos territórios, principalmente para as comunidades quilombolas e indígenas que estão na área rural, com desmatamento, destruição das nascentes, tirando a biodiversidade do campo, não se pode ter um animal debaixo dos eucaliptos, expandindo queimadas e nos tirando a água potável. Além disso, a demora na regularização dos nossos territórios vai nos tirando do nosso espaço.”
São comunidades que vivem sendo parte da natureza, plantando o seu alimento, cuidando das nascentes, reciclando o lixo, fazendo compostagem e produzindo o bem-viver. Modos de vida que muito nos inspiram a pensar fora dos emaranhados desse sistema capitalista patriarcal-racista, a partir de onde vivemos.
A CMPC está investindo 27 bilhões nessa nova fábrica e ofereceram 50 milhões para as comunidades indígenas. Como povos originários enfrentam empobrecimento econômico, muitos aceitaram essa quantia, que para pessoas indígenas é muito, enquanto para a empresa é muito pouco. As lideranças da Aldeia Pindó Mirim, Arnildo e Gabi, disseram que a consulta com os povos indígenas não foi feita corretamente porque não deram espaço para o diálogo, nem tempo para tomadas de decisões. Povos indígenas têm o direito de fazer negociações nos seus tempos. O ritmo da vida e dos tempos indígenas são diferentes e isso tem que ser respeitado.
A nova fábrica, caso seja implantada, vai lançar na água do Guaíba o efluente AOX (Compostos Organohalogênicos Adsorvíveis) e dioxinas, que são subprodutos tóxicos gerados principalmente pelo branqueamento do papel. Isso vai contaminar a água e o solo, aumentando em 443% essas toxinas nos sedimentos do Lago por mais de cem anos. Não podemos deixar que essa nova fábrica seja construída, pois os danos serão imensos e duradouros.
Desde 2020, a experiência de luta coletiva que barrou o projeto “Mina Guaíba” de mineração de carvão em Charqueada, que também ignorava os povos e comunidades da região e colocava em risco a água do Guaíba, nos inspira a seguir mobilizando e nos organizando na defesa dos bens comuns e dos territórios contra as empresas transnacionais.
A audiência foi bastante informativa. Se estiveres curiosa, vai lá no Facebook da Sofia Cavedon para vê-la completa : https://www.facebook.com/share/v/1DgAfTBqL8/
Seguiremos em marcha pela Pampa, pelo fim das monoculturas e contra quem destrói os nossos bens comuns! Em defesa do Lago Guaíba, ecoamos pela Pampa que eucalipto não é floresta!
Seguiremos em marcha até que a sustentabilidade da vida esteja no centro de todas as políticas! Até que todas sejamos livres!








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