quarta-feira, 6 de maio de 2026

24 de abril: Dia de Solidariedade Contra o Poder Corporativo. Denúncia contra a CMPC Celulose!


Os donos das empresas transnacionais buscam transformar tudo em mercadoria: a terra, a água, os saberes, os territórios, o trabalho, a própria vida. Até mesmo florestas e matas nativas, que, depois de devastadas, são transformadas em ‘plantios industriais de árvores’, como os milhões de hectares de eucaliptos pelo estado do Rio Grande do Sul. 


Quem vê árvore, não vê floresta, nem campo. Acreditamos que o termo que melhor descreve esses monocultivos são ‘desertos verdes’, por conta da destruição que há do solo, das águas e da biodiversidade. Aliás, a vegetação nativa e biodiversa que equilibra os fluxos ecológicos é posta abaixo, e o solo sofre de erosão e assoreamento dos rios. Em tempo de chuvas fortes é bom lembrar: esse processo também aumenta a chance de inundações e secas extremas. 


As consequências desses plantios de eucalipto são múltiplas, e também gera um alto consumo de água e um impacto nas águas superficiais e subterrâneas. Ao contrário dessa lógica do capital, defendemos que bens comuns não são mercadoria. Chamamos de bens comuns a água que bebemos, a terra fértil, a comida boa, os biomas, as sementes nativas, as sabedorias construídas coletivamente e conhecimentos compartilhados, a educação, a saúde, a energia, a comunicação e os meios de transporte. Em poucas palavras, os bens comuns são tudo o que é indispensável para a sustentabilidade da vida, são parte do que somos e não devem ser explorados para o acúmulo de riquezas do capital!


O avanço das transnacionais sobre os territórios é sistemático, ou seja, ocorre de forma semelhante independentemente do setor. A chegada dessas empresas, com grande número de trabalhadores homens, representa uma ameaça para meninas e mulheres das comunidades, ao intensificar a exploração sexual e a prostituição — muitas vezes articuladas pelas próprias empresas, que também estabelecem alianças com o crime organizado para controlar o território. 

No caso da fábrica da CMPC Celulose em Guaíba, casos de vazamento de cloro já intoxicaram a população, além do cheiro constantemente insuportável que causa enjoos e até dores de cabeças nas pessoas que residem ou ocupam espaços mais próximos, como escolas e comércios. Outra questão, é avanço de expansão das áreas da fábrica, incidindo no plano diretor, na mobilidade urbana, no meio ambiente e relações das pessoas com o território, dividindo uma parte que antes era de fácil acesso, para ampliar a área de reserva de madeira para a produção em nome de um "desenvolvimento" que não gera de fato impacto real em melhorias socioeconômicas da população e no meio ambiente. Além do mais, acaba que das possibilidades profissionais dos jovens viram o sonho familiar de trabalho na fábrica, onde cursos técnicos, como instrumentalização e química com ênfase em celulose e papel, se tornam comuns para criação de mão de obra local, que se acomoda ao trabalho e as condições invisíveis da insalubridade posta pela indústria.


Nos últimos anos, o capitalismo se reorganizou nesse processo, adotando a fusão de grandes corporações como estratégia para concentrar poder. Essas fusões fortalecem chantagens e alianças com Estados, governos, bancos e instituições internacionais, ampliando a exploração dos territórios. Ao mesmo tempo, mantêm o discurso de “desenvolvimento” para a América Latina, enquanto destroem a natureza, as comunidades e aprofundam as divisões sexual, racial e internacional do trabalho, como se observa em setores como mineração, agronegócio, energia e digitalização.

Nós, mulheres do Rio Grande do Sul, denunciamos a CMPC Celulose que expande suas fábricas e destroem o Pampa. Também denunciamos as contratações para a reconstrução das cidades de empresas que historicamente desrespeitaram populações, movimentos e universidades locais. Nesse marco de dois anos das enchentes, repudiamos como a falta de consideração das experiências acumuladas pelos movimentos, como as cozinhas solidárias, prejudica a reconstrução. Queremos o reconhecimento que os trabalhos do dia a dia das mulheres na periferia são fundamentais para sustentar a vida e queremos que isso faça parte das políticas públicas. Mais que isso: queremos um sistema que seja centrado nos cuidados e nos trabalhos que são realmente necessários para o bem-viver de toda a população.


Marcha Mundial das Mulheres RS e Amigas da Terra Brasil.