sexta-feira, 31 de julho de 2026

Artigo: O papel do SUS no enfrentamento às violências contra as mulheres


O papel do SUS no enfrentamento às violências contra as mulheres

Por Gabriela Cunha e Cláudia Prates


Entendemos que a violência contra as mulheres e o feminicídio não acontecem de forma isolada. Eles são ferramentas estruturais de poder, controle e hierarquia que sustentam a desigualdade na sociedade

Para nós, o enfrentamento a essa violência passa necessariamente por compreender que estamos falando também de Justiça Reprodutiva. 

Temos o direito de decidir sobre nossos corpos, o direito de não ter filhos, e o direito de criar nossos filhos com segurança e dignidade. 

Sabemos que o racismo estrutural determina quais corpos são mais vulnerabilizados e quem mais sofre com a desassistência. 

O SUS, portanto, não é apenas um executor de políticas, ele é o território fundamental de liberdade e autonomia das mulheres. É um instrumento para chegar aonde outros serviços não chegam. É a primeira porta por onde uma mulher, adolescente ou uma criança chega e pode detectar sinais de que ali tem um corpo que pede socorro. 

O SUS, além de porta de entrada, é também garantia de direitos!


O SUS só amplia sua capacidade de prevenir o feminicídio quando entende a Atenção Primária como um espaço de escuta qualificada. E isso exige, a qualificação das relações entre os/as profissionais e as mulheres, para que o respeito, a privacidade e a autonomia seja a base dos atendimentos. 

Nós precisamos deixar muito nítido para a sociedade e para as nossas equipes que o SUS não é polícia. Que o papel do SUS não é julgar ou punir, mas sim cuidar e proteger. 

Para cuidar e proteger, precisamos primeiro identificar sinais de violência, muitas vezes sinais sutis e naturalizados como normais nessa sociedade machista. Esses sinais muitas vezes se manifestam de forma silenciosa através de transtornos mentais, sofrimento psíquico, doenças crônicas inexplicáveis, queixas recorrentes.

Mas como fazer a identificação precoce desses sinais? É na construção de uma relação de confiança. 

Preencher a ficha de notificação compulsória é muito importante, mas o essencial é garantir que essa mulher se sinta segura para falar. 

Outro importante sinal de violência é a presença de parceiros intrusivos que tentam controlar a fala das mulheres. E aqui cabe um manejo ético das nossas equipes: mesmo que a mulher tenha o direito legal de estar com um acompanhante, se há esses sinais de alerta, precisamos criar mecanismos estratégicos de escuta separada

Esse momento a sós é fundamental para que ela possa falar sem medo, seja para relatar uma violência contra si mesma ou contra seus filhos. 

É a partir desse espaço protegido que a profissional de saúde consegue dar sequência aos encaminhamentos — o que pode incluir, por exemplo, o acesso ao aborto legal, caso se identifique ali uma gestação que é fruto de uma violência sexual. 

E, além dos encaminhamentos conforme definidos pelas equipes, também pode se conseguir romper com ciclos de violência quando a rede de proteção estatal é acionada junto ao acolhimento sem julgamento,  onde saídas são apresentadas às mulheres 

Assim, a partir das relações dentro do SUS, a gente pode sim enxergar, de forma conjunta, uma outra forma de viver sem violência.


Para fortalecer essa rede, precisamos propor rastreios qualificados e sensíveis desses sinais como parte da rotina de atendimento da nossa rede básica. 

Isso inclui, de forma inegociável, informar sobre o direito ao acesso ao aborto legal previsto em lei, como um cuidado de saúde, livre de preconceitos e barreiras.

Não podemos ignorar que o racismo estrutural opera dentro dos serviços de saúde, fazendo com que o julgamento e a negação de direitos recaiam com ainda mais violência sobre as mulheres e meninas negras. 

E aqui, reforçamos, de forma muito séria, os casos de crianças e adolescentes, que têm informações sonegadas quando não ofertamos a possibilidade prevista em lei ao aborto legal, levando à perda violenta da infância. 

A violência corrói a saúde mental dessas mulheres de forma devastadora. 

Quando acolhemos alguém nessa situação, o papel da profissional deve ser o de apoiar a mulher a identificar suas próprias necessidades e planejar, de forma conjunta, algo como um "plano terapêutico singular" que seja viável. Mas MUITO importante: o plano tem que ser construído com ela, porque a decisão final sobre qual caminho seguir, quando e como dar o próximo passo, pertence única e exclusivamente à própria mulher. 


Precisamos também dizer que essa engrenagem de cuidado só se sustenta se olharmos para quem está na ponta do serviço

Cuidar de quem cuida exige uma política séria de atenção à saúde mental das profissionais de saúde, combatendo o esgotamento que a sobrecarga e o contato diário com os traumas impõem às nossas equipes. 

Não há humanização no atendimento sem a devida proteção da saúde mental das trabalhadoras e trabalhadores do SUS. 


Reforçamos que não queremos um SUS que apenas 'encaminha'. Queremos um SUS que garanta a proteção integral em rede, onde a “articulação intersetorial” tenha como centralidade a vida, e não processos engessados que travam melhorias. 

E como os movimentos sociais podem ajudar? Qual nosso papel?

Os movimentos sociais, como a Marcha Mundial das Mulhere, o Fórum do Aborto Legal RS e outros movimentos aliados, são e caminham lado a lado com as comunidades, atuando como um termômetro das políticas. 

Mais do que ocupar esses espaços, nós somos parte viva desta rede e construímos o controle social no dia a dia. 


Trazemos 5 grandes pontos que defendemos que uma agenda permanente de enfrentamento à violência contra as mulheres no SUS precisa ter:

  1. Formação contínua e integrada com as universidades:  Precisamos fortalecer parcerias com as instituições de ensino para garantir a educação permanente sobre racismo estrutural, desigualdade de gênero, identificação das violências e direitos reprodutivos.

  2. Monitoramento coletivo da rede de atenção, garantindo que as políticas cheguem às mulheres nas periferias e nas áreas rurais.

  3. Precisamos enfrentar esse modelo que terceiriza os serviços e privatiza cada vez mais o nosso SUS: Sabemos da alta rotatividade de profissionais nos serviços e do enorme volume de pessoas atendidas diariamente. 

Na cidade de Porto Alegre, por exemplo, não vamos conseguir garantir capacitação continuada dos nossos trabalhadores e trabalhadoras, e nem promover vínculos de confiança delas com as mulheres, com mais de 95% das nossas unidades básicas privatizadas. 

A troca constante de empresas e de profissionais vai na contramão de um SUS que enfrenta as violências contra as mulheres.

4) Rastreio sensível e tático dos sinais de violência, como parte integrante da rotina de atendimento da rede básica.

Isso tem que ser feito em conjunto com demais órgãos responsáveis pela rede de proteção, sem revitimizar ou violentar sistematicamente as mulheres. 

5) Fortalecimento dos conselhos de saúde como espaços reais de debate e construção coletiva.


Diante de forças que ameaçam o SUS, nossa resposta é o acolhimento, o olho no olho, a escuta, a resistência e o fortalecimento do maior sistema público e gratuito de saúde do mundo. 

A garantia da Justiça Reprodutiva e o fim da violência contra mulheres e meninas não cabem em promessas de campanha. 

Cuidar da cidade, do estado e do país é garantir que as mulheres vivam sem medo, e isso exige orçamento real e o compromisso coletivo de transformar a rede de proteção em uma política de Estado permanente, e imune aos calendários eleitorais e as ameaças, como vimos acontecer na pandemia ou nas enchentes.

Como base viva desse movimento, seguimos presentes e vigilantes. 

Queremos ter a certeza de que o SUS continuará sendo a nossa casa, o nosso espaço de autonomia e nosso maior aliado na defesa de vidas livres de violência.


Seguiremos em Marcha até que todas sejamos livres da violência que tenta nos aprisionar e nos calar todos os dias. 

Nenhuma mulher a menos. Por todas nós.


Registros da militante da MMM, Gabriela Cunha como palestrante convidada na mesa Agenda Estratégica contra o Feminicídio: o papel do SUS no enfrentamento às violências contra as mulheres, durante o XXXIX Congresso do Conasems, no dia 14 de julho de 2026.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

MMM participa da Feira da Cidadania em Porto Alegre e denuncia a destruição ambiental, a mercantilização da natureza e o desmonte das políticas públicas!


No dia 19 de Junho aconteceu em Porto Alegre a Feira da Cidadania, organizada pela Secretaria Geral da Presidência da República, órgão central nas articulações do governo com movimentos e organizações populares. Abaixo está a fala que a nossa companheira Any Moraes, da MMM RS e Coletivo Periferia Feminista, compartilhou:


Falo em nome da Marcha Mundial das Mulheres e das mulheres que sustentam a vida nos territórios populares do Rio Grande do Sul.


Para nós, as mudanças climáticas não pode ser separada das desigualdades produzidas por um modelo econômico que concentra riqueza e transfere para as mulheres a responsabilidade pelo cuidado e pela sobrevivência. Justiça climática exige enfrentar as desigualdades de gênero, raça e classe e colocar a sustentabilidade da vida no centro das políticas públicas.


O que vivemos no Rio Grande do Sul não foi apenas resultado das chuvas extremas. Foi também consequência de anos de negligência, fragilização das políticas públicas, da falta de planejamento e da ausência de participação das comunidades na construção das respostas. 


Denunciamos há muitos anos que a destruição ambiental, a mercantilização da natureza e o desmonte das políticas públicas atingem de forma mais dura as mulheres, especialmente as mulheres negras, periféricas, indígenas, camponesas e chefes de família. E quando a crise climática encontra a desigualdade social, os impactos são muito mais profundos.


Por isso, o principal desafio que temos hoje não é apenas reconstruir o que foi destruído. É preparar os territórios para os eventos extremos que continuarão acontecendo.


Para isso, a adaptação climática e a gestão de riscos precisam ser construídas com participação popular. Os planos de contingência, os sistemas de alerta, as estratégias de prevenção e os investimentos públicos devem dialogar com quem vive nos territórios e conhece sua realidade. As soluções estão no território! 


É fundamental reconhecer as organizações comunitárias como parte estruturante da gestão de riscos e da adaptação climática!


Essas experiências precisam deixar de ser vistas apenas como ações emergenciais e passar a ser reconhecidas como parte permanente das políticas públicas. 


Defendemos a criação de mecanismos permanentes de formação, participação e articulação dessas lideranças na governança da adaptação climática e da gestão de riscos.


Falar em prevenção também significa enfrentar as causas da crise climática. Não podemos discutir adaptação sem discutir a emissão de gases de efeito estufa e os impactos de grandes empreendimentos sobre os territórios. 


Aqui no RS temos o caso da CMPC, com ausência de consulta adequada às comunidades indígenas e pelos impactos desconsiderados, e isso reforça a necessidade de alinhar desenvolvimento econômico, justiça ambiental e proteção dos bens comuns. 


O Brasil precisa construir uma cultura permanente de prevenção, preparação e resposta organizada às emergências climáticas. Não podemos continuar atuando apenas depois que a tragédia acontece. É preciso fortalecer a capacidade dos territórios, das comunidades e do poder público para agir antes, durante e depois dos desastres. 


Experiências internacionais, como a das nossas companheiras cubanas na preparação comunitária para desastres, demonstram que comunidades organizadas salvam vidas, reduzem perdas e fortalecem a capacidade de resposta diante das emergências.


A solidariedade e o trabalho voluntário salvaram vidas no Rio Grande do Sul, mas solidariedade não substitui política pública. É preciso de orçamento! 


Não haverá adaptação climática sem justiça social. E não haverá justiça climática sem a participação dos povos organizados na construção das soluções.


Seguiremos em marcha, até que todas sejamos livres!

 




quarta-feira, 6 de maio de 2026

24 de abril: Dia de Solidariedade Contra o Poder Corporativo. Denúncia contra a CMPC Celulose!


Os donos das empresas transnacionais buscam transformar tudo em mercadoria: a terra, a água, os saberes, os territórios, o trabalho, a própria vida. Até mesmo florestas e matas nativas, que, depois de devastadas, são transformadas em ‘plantios industriais de árvores’, como os milhões de hectares de eucaliptos pelo estado do Rio Grande do Sul. 


Quem vê árvore, não vê floresta, nem campo. Acreditamos que o termo que melhor descreve esses monocultivos são ‘desertos verdes’, por conta da destruição que há do solo, das águas e da biodiversidade. Aliás, a vegetação nativa e biodiversa que equilibra os fluxos ecológicos é posta abaixo, e o solo sofre de erosão e assoreamento dos rios. Em tempo de chuvas fortes é bom lembrar: esse processo também aumenta a chance de inundações e secas extremas. 


As consequências desses plantios de eucalipto são múltiplas, e também gera um alto consumo de água e um impacto nas águas superficiais e subterrâneas. Ao contrário dessa lógica do capital, defendemos que bens comuns não são mercadoria. Chamamos de bens comuns a água que bebemos, a terra fértil, a comida boa, os biomas, as sementes nativas, as sabedorias construídas coletivamente e conhecimentos compartilhados, a educação, a saúde, a energia, a comunicação e os meios de transporte. Em poucas palavras, os bens comuns são tudo o que é indispensável para a sustentabilidade da vida, são parte do que somos e não devem ser explorados para o acúmulo de riquezas do capital!


O avanço das transnacionais sobre os territórios é sistemático, ou seja, ocorre de forma semelhante independentemente do setor. A chegada dessas empresas, com grande número de trabalhadores homens, representa uma ameaça para meninas e mulheres das comunidades, ao intensificar a exploração sexual e a prostituição — muitas vezes articuladas pelas próprias empresas, que também estabelecem alianças com o crime organizado para controlar o território. 

No caso da fábrica da CMPC Celulose em Guaíba, casos de vazamento de cloro já intoxicaram a população, além do cheiro constantemente insuportável que causa enjoos e até dores de cabeças nas pessoas que residem ou ocupam espaços mais próximos, como escolas e comércios. Outra questão, é avanço de expansão das áreas da fábrica, incidindo no plano diretor, na mobilidade urbana, no meio ambiente e relações das pessoas com o território, dividindo uma parte que antes era de fácil acesso, para ampliar a área de reserva de madeira para a produção em nome de um "desenvolvimento" que não gera de fato impacto real em melhorias socioeconômicas da população e no meio ambiente. Além do mais, acaba que das possibilidades profissionais dos jovens viram o sonho familiar de trabalho na fábrica, onde cursos técnicos, como instrumentalização e química com ênfase em celulose e papel, se tornam comuns para criação de mão de obra local, que se acomoda ao trabalho e as condições invisíveis da insalubridade posta pela indústria.


Nos últimos anos, o capitalismo se reorganizou nesse processo, adotando a fusão de grandes corporações como estratégia para concentrar poder. Essas fusões fortalecem chantagens e alianças com Estados, governos, bancos e instituições internacionais, ampliando a exploração dos territórios. Ao mesmo tempo, mantêm o discurso de “desenvolvimento” para a América Latina, enquanto destroem a natureza, as comunidades e aprofundam as divisões sexual, racial e internacional do trabalho, como se observa em setores como mineração, agronegócio, energia e digitalização.

Nós, mulheres do Rio Grande do Sul, denunciamos a CMPC Celulose que expande suas fábricas e destroem o Pampa. Também denunciamos as contratações para a reconstrução das cidades de empresas que historicamente desrespeitaram populações, movimentos e universidades locais. Nesse marco de dois anos das enchentes, repudiamos como a falta de consideração das experiências acumuladas pelos movimentos, como as cozinhas solidárias, prejudica a reconstrução. Queremos o reconhecimento que os trabalhos do dia a dia das mulheres na periferia são fundamentais para sustentar a vida e queremos que isso faça parte das políticas públicas. Mais que isso: queremos um sistema que seja centrado nos cuidados e nos trabalhos que são realmente necessários para o bem-viver de toda a população.


Marcha Mundial das Mulheres RS e Amigas da Terra Brasil.