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terça-feira, 29 de agosto de 2017

Três casamentos, um amor e aquela sensação …

* por Naiara Malavolta Saupe

Havia aquela sensação de embrulho no estômago, como se algo estivesse preso, agitado, querendo subir e pular boca afora. O coração acelerado e o sangue pulsando forte pelas veias parecia ter pressa de chegar a algum lugar.
Poucas coisas lhe causavam isso, a maioria em situações de enorme tensão, pura excitação ou de muito constrangimento, mas nada como nesta noite. Nada era comparável à sensação que vivia nesta noite.
A agonia fazia com que se lembrasse do dia em que chegou a Bagé, para assumir o cargo no concurso do TRT. Muito constrangimento foi o que sentiu à época.
O ano era 1991, acabara de fazer 24 anos. Desde os 18 estavam juntas, moravam juntas, dormiam juntas e toda a família sabia, os amigos sabiam, não escondiam mais de ninguém, afinal já fazia quase seis anos.
Mas aquela era uma situação nova, um emprego novo, uma cidade nova. Acabara de passar no concurso, não conhecia ninguém, chegando no interior e com muita expectativa para o futuro. Ao entrar na Junta foi recebida pela Diretora, Isolda, e apresentada para os colegas. Todas pessoas gentis e cheias de curiosidade. Uma chuva de perguntas caía sobre ela e não demorou para que ouvisse:
- Solteira, casada ou tico-tico no fubá? - questionou Adalberto.
Pega de surpresa, num ato de autodefesa, respondeu, instintivamente, quase sem pensar:
- Casad…
Antes que acabasse de pronunciar a palavra, já estava arrependida e xingando-se mentalmente: “idiota, o que é que eu fui fazer?”!
A coisa dentro do estômago ficava mais agitada, subia pelo esôfago, alojando-se na garganta. O sangue corria forte e parecia instantaneamente drenado todo para as bochechas, quando a segunda pergunta foi arremessada contra ela por uma colega de simpatia rechonchuda:
- Já? Tão cedo! Qual o nome DELE?
ELE (idiota!). Qual o nome DELE, pensava? O que é que eu vou dizer?
- Marcelo, o nome dele é Marcelo! - respondeu com as têmporas latejantes e com muito, muito constrangimento.
Ria mentalmente ao lembrar da cena e de toda a situação que dela derivou: culpa, medo, negação, 16 meses de mentiras cada vez mais elaboradas todas as vezes que falava ao telefone com a Mary e a chamava pelo nome de Marcelo. Adoeci por conta daquilo, pensou com alguma melancolia. Enquanto isso a Mary se divertia com a situação e dizia para esquecer, porque foi necessário!
Mas ela adoecera e só se deu conta disso muitos anos depois, quando já elaborava mais sobre estes assuntos.
Existiram, depois desta, inúmeras outras situações em que “a coisa” cresceu no estômago, geralmente nas primeiras vezes. Sim, primeiras vezes, porque em 30 anos de relacionamento lésbico existiram muitas primeiras vezes: a primeira vez que foram apresentadas às dezenas de parentes e suas expressões de curiosidade, estranheza ou surpresa; a primeira festa que foram juntas no trabalho de uma ou de outra; o primeiro beijo em público; o primeiro passeio de mãos dadas na rua; as compras que fizeram juntas e os vendedores perguntando se eram irmãs, ou amigas e ouvindo espantados: “Não, ela é minha companheira”; a primeira vez que, em um hotel, exigiram cama de casal, ao invés de simplesmente juntar as camas de solteiro do quarto em que foram alojadas.
Nossa! Foram muitas primeiras vezes! E em todas aquela sensação de embrulho no estômago estivera presente. E sempre, nestes casos, causada por enorme tensão.
Não deixava de ser irônico, hoje estavam vivendo uma outra primeira vez! Só que desta vez com sabor de reprise. “Estamos casando pela terceira vez”, concluiu mentalmente, entre surpresa e excitação!
E era verdade! A primeira vez que casaram foi em 1985, quando resolveram morar juntas. Ela com 18 e Mary com 33 anos. Compraram móveis devagar, na medida em que juntavam dinheiro. Mudaram-se quase que simplesmente com as roupas do corpo, porque o importante era que estivessem juntas. Convidaram alguns poucos amigos para aquele primeiro casamento, quando inauguraram a nova moradia.
A segunda vez que se casaram foi 19 anos depois, em 2004, quando, amparadas por uma decisão do TJ-RS, assinaram a Declaração de União Estável. Fizeram sozinhas, meio na correria, num impulso de não deixar a oportunidade passar. Ela estava com 37 e Mary com 52 anos.
Esta era a terceira vez que casariam, no dia exato em que completavam 30 anos de união. Para esta noite tudo foi planejado com meses de antecedência: o salão estava cheio, fizeram os proclamas e contrataram a juíza, fotógrafa, comidas, garçons. Quatro casais de padrinhos, bolo de casamento, champanhe e bem-casados para o final …. e aquela sensação de embrulho no estômago, subindo pelo esôfago e trancando na garganta, igual a todas as outras vezes. Mas não, nada era comparável a sensação daquela noite!
Despertou do devaneio quando em meio à música a juíza perguntou:
- Ana Naiara, aceita Mary Saupe como sua legítima esposa?
- Sim, aceito!
E a “coisa” saltou para fora da garganta junto com o SIM, desobstruindo o estômago e aliviando o coração. Era um momento raro, de pura excitação!

* Naiara Malavolta Saupe é militante lésbica feminista da Marcha Mundial das Mulheres RS

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Sobre assumir quem você é e mudar o mundo

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Foto: Elaine Campos
* por Vanessa Gil
A primeira coisa que você deve saber ao ler esse texto é que ele é um relato pessoal de como esse processo aconteceu comigo. Cada uma de nós vivencia de forma diversa. O fato é que sempre fui lésbica. Isso não impediu que me relacionasse com homens por muito tempo. Hoje, passados alguns anos, vejo isso como a ação da heteronormatividade na minha vida. No fundo eu sabia, mas crescemos numa sociedade onde ser hétero é a regra. Eu tentei segui-las. Quando nós dizemos bissexuais a coisa flui. A gente ainda esta disponível para os homens. Está disponível é bem dentro do que a pornografia vende, duas mulheres, o sonho da sexualidade masculina. Mas quando você rompe com isso, acorda e diz, sou lésbica, a coisa muda de figura. Você está informando o mundo que seu corpo, sua sexualidade não está mais disponível para o desejo masculino.
Levei muitos anos para me assumir lésbica. Mas sou uma privilegiada. Minha família disse: “a gente já sabia, seja feliz!”. Nunca trataram minhas namoradas com qualquer diferença entre homens que namorei ou as namoradas do meu irmão, do meu filho. Essa não é a realidade da maioria. Mas várias de nós podem se assumir e seguem no medo da rejeição. Amiga, quem te ama de verdade não se importa com quem você transa. Isso vale pra todas as pessoas com as quais você se relaciona. Para mim, e aqui faço um relato bem pessoal, foi libertador. Foi como tirar um peso gigante das costas. Cabe ressaltar que tudo isso foi possível porque o movimento feminista me mostrou que não estava só, que não era a única e que o pessoal é politico. Obrigada as que vieram antes de mim!
Tenho orgulho de ser lésbica. Faço questão de que todo mundo saiba. Passei muitos anos sem contar para ninguém, escondi namoros de anos. Hoje, sempre que entro em sala de aula digo que sou lésbica. O motivo é bem simples. Passei boa parte da vida achando que lésbicas e gays tinham uma vida promiscua. E mais um monte de ignorâncias. Não havia lésbicas entre minhas professoras, minhas médicas, entre as vizinhas. Óbvio que elas estavam lá, mas não contavam para ninguém. E eu achava que era só eu. Depois conheci outras lésbicas, mas todas também vivendo no armário. Falo de mim onde posso para que outras meninas saibam que nós existimos, vamos para a universidade, nos apaixonamos, temos filhos, estudamos.
A primeira vez que contei na escola onde lecionava foi visível o alívio na cara dos alunos gays e alunas lésbicas. As piadas lesbofóbicas e homofóbicas diminuíram, afinal, a autoridade em sala de aula era lésbica. A sala das professoras passou a ter muito mais cuidado com o que dizia. No ano seguinte vários casais gays e lésbicas surgiram no pátio. Ou seja, quando você se assume, quando nós assumimos, mudamos o mundo. E ajudamos as outras que virão depois de nós. Nem todas podemos se assumir com tanta tranquilidade, mas se você puder, faça. O mundo e você ficarão mais livres.
*Vanessa Gil é socióloga e militante da Marcha Mundial das Mulheres do Rio Grande do Sul.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Ação de base - Panfletagem no Humaitá/POA





Nesse sábado, a partir das 13h30min, a Frente Brasil Popular estará realizando uma atividade de panfletagem e diálogo com a população no bairro Humaitá.
Essa é iniciativa para que possamos enraizar a luta  da FBP nos bairros e periferias de Porto Alegre, articuladas com as lideranças comunitárias da região.

Essa atividade em especial foi proposta e organizada pela MMM junto com o movimento de mulheres da Frente e pretende fazer o recorte das mulheres, apresentando como as reformas trabalhista e da previdência afetam principalmente a nós!

Convocamos todas e todos a estarem presentes fortalecendo a luta contra o golpe e a retirada de direitos!

Quando: 20/05 (sábado)
Que horas: a partir das 13h30min
Ponto de encontro: EMEF Antônio Giudice, rua Caio Brandão de Melo n 1, Humaitá
Contatos: Maria do Carmo (993619985) e Alicia (993589061)