O dia 25 de julho é o
dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. A data é um marco para a
visibilidade da luta e resistência de Mulheres Negras, além de chamar atenção
anualmente para as problemáticas sociais que fazem parte da vida dessas
mulheres. O dia 25 de julho, foi escolhida no ano de 1992, em um encontro entre
32 países da América Latina e do Caribe, promovido na República Dominicana. Em
junho de 2014 a Presidenta Dilma sancionou via decreto de Lei o dia 25 de julho
como Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra no Brasil.
Apesar da
invisibilidade, ora quebrada, da contribuição política, intelectual e das
experiências sociais de mulheres negras, pela busca histórica de outras
possibilidades de existir desde a instauração de territórios colonizados por
meio da escravização, mulheres negras acumularam ações e saberes que romperam
as fronteiras dos Estados-Nações, e hoje, nos servem de base para a prática
política da busca por igualdade. É histórica a ação de mulheres negras tendo em
vista a ocupação e reivindicação do Estado pela conquista de direitos. Costumo dizer
que nossos passos em direção às políticas públicas vêm de longe.
Se voltarmos o nosso
olhar através de uma perspectiva de gênero para o processo de construção das
Abolições nas Américas ao longo de todo o século XIX, veremos que a
centralidade do processo da conquista de liberdade, assim como, da manutenção
da escravização por parte dos escravistas, esteve colocada no corpo das
mulheres e na luta travada pelo direito de posse sobre seus próprios corpos,
principalmente seus ventres. Isso torna a experiência de mulheres negras
interseccional, ou seja, houve uma construção de gênero para as mulheres negras
que perpassou pela exploração biológica de seus corpos para a implementação e
manutenção do sistema econômico, unindo, dessa forma, gênero, raça e classe.
Esse processo está muito bem colocado no primeiro capítulo de Mulheres, raça e
classe de Angela Davis.
Como sabemos, o sistema
capitalista na América colonizada, foi implementado sob a base escravocrata, ou
seja, houve uma sofisticação e readequação do modo de exploração do trabalho
que já estava estruturado pela escravização. Assim, as construções sociais do
corpo biológico é que determinam o modo como o trabalho será explorado, e mais
do que isso, como essas as vidas negras e brancas serão tratadas na sociedade
vigente. Isso explica as mulheres negras serem as que mais exercem a função de
empregada doméstica, as que recebem os menores salários, as que mais exercem o
trabalho informal, as que mais perderam empregos em tempos de crise, e as que
mais demoram para se recolocarem em vagas registradas pela CLT. E, ainda, nós
mulheres negras não somos reconhecidas pelo nosso trabalho intelectual para a
luta política mesmo dentro das esquerdas.
Contudo, a experiência
histórica, social, intelectual e de luta das mulheres negras é de grande
contribuição para nós, mulheres marchantes que compomos um movimento mundial
feminista anticapitalista. A experiência de classe de mulheres negras, ou da
exploração do trabalho de mulheres negras, é atravessada pelas construções de
raça e gênero, dessa forma, expõem a lógica de funcionamento do sistema
capitalista. Além da já citada Angela Davis, temos a contribuição de Lélia
Gonzalez, importante intelectual brasileira sobre o tema.
Lélia Gonzalez, deixou
de uma forma muito nítida, através de seus estudos que a observação das
representações e da forma de exploração do trabalho exercido por mulheres
negras nos dão chaves de interpretação sobre o racismo à brasileira, como a
autora falava, que serve para a manutenção da exploração no atual sistema
econômico. Como sempre nos lembra Angela Davis, não existe capitalismo sem
racismo, pois esse é um dos pilares que estrutura todo o sistema, juntamente
como o gênero, e sustenta a sua manutenção, ainda que, o racismo atue de
maneira específica sobre a vida de mulheres, e também homens negros. Nesse
ponto quero chamar a atenção, que, diante das necropolíticas instauradas pela
presente fase do neoliberalismo, é necessário que ampliemos a discussão sobre a
vida dos homens negros, exterminados e encarcerados diariamente diante de
nossos olhos.
Se somos mulheres
feministas anticapitalistas e compreendemos que a exploração das vidas nesse
sistema está alicerçada, mantida e estendida a todas e todos a partir da estrutura
de raça, necessariamente somos e devemos ser mulheres antirracistas e assumimos
e reafirmamos essa posição política na passagem do dia da Mulher Negra
Latino-Americana e Caribenha.
* Bruna Letícia dos Santos é Professsora e historiadora, militante feminista da MMM Caxias do Sul