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quinta-feira, 4 de junho de 2020

NOTA DE REPÚDIO Á VIOLÊNCIA E APOIO ÀS MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA NAS CIDADES DE NOVA PRATA, NOVA BASSANO, NOVA ARAÇÁ, PARAÍ E SERAFINA CORREA-RS.


NOTA DE REPÚDIO Á VIOLÊNCIA E 
APOIO ÀS MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA 
NAS CIDADES DE NOVA PRATA, NOVA BASSANO, NOVA ARAÇÁ, PARAÍ E SERAFINA CORREA-RS.


Nós, mulheres ativistas do estado do Rio Grande do Sul, da Marcha Mundial das Mulheres queremos primeiramente trazer NOSSO APOIO às mulheres que tiveram a coragem de denunciar a violência sofrida por homens destas cidades.
Temos assistido todos os dias a casos de violência contra mulheres e meninas e às mortes de tantas outras que não tiveram a chance de seguir suas vidas, livres da opressão e do machismo. Vivemos em um país que passa por crescentes casos de violência contra as mulheres e feminicídio em isolamento social da Covid-19, somado a um governo conservador e fundamentalista de extrema-direita, misógino, armamentista, que propaga discursos de ódio contra as minorias e promove retirada de direitos. Em 2019, o Rio Grande do Sul foi o terceiro estado do país com mais casos de feminicídio e no início de 2020 já apresentava um aumento de 233%. Aqui salientamos que o governo estadual fez um repasse de apenas R$20.000,00 para políticas de enfrentamento a violência contra mulher. Em anos anteriores, como 2014, o investimento chegou a cerca de R$10.000.000,00.
Pode-se observar que dos municípios de Nova Prata e Paraí registraram casos de estupro conforme dados do Observatório da Violência Contra Mulheres (Secretaria Estadual de Segurança Pública). Os cinco municípios (Nova Prata, Nova Bassano, Nova Araçá, Paraí e Serafina Correa) registram casos de ameaças e lesão corporal contra mulheres. É importante lembrar que em pesquisa realizada pelo jornal Pioneiro em janeiro de 2019, no período de 2012 a 2018, na serra gaúcha foram registrados 47.190 mil casos de violência contra mulher e 30 cidades registraram 92% das comunicações de feminicídios e suas tentativas, lesões corporais, crimes sexuais e ameaças. Dentre as 30 cidades mais violentas estão Nova Prata (7º), Nova Bassano (27º) e Paraí (30º), além disso, registraram feminicídios durante o mesmo período Nova Prata (1), Serafina Correa (2) e Nova Bassano (2).
 Agora, chega até nós que, a partir de um espaço virtual público, um grupo de mulheres abriu caminho para que outras tantas vítimas trouxessem seus casos de violência sofrida, fossem casos de assédio, violência psicológica e até estupro. Tão grave quanto às denúncias é o silêncio de instituições que deveriam proteger estas jovens, onde não encontraram apoio. Muitas ainda vivem estas violências, como no caso de um professor de educação física (e já soubemos de outro professor na mesma escola), que ainda permanece dando aulas e praticando seu sexismo no interior da escola onde mais casos de adolescentes assediadas são relatados.
Nenhum profissional de ensino têm o direito de tocar, de acariciar os corpos das estudantes, pedir seus nudes ou constrangê-las com piadas de duplo sentido, cantadas e olhares.

O SILÊNCIO É CÚMPLICE DA VIOLÊNCIA.

Os respectivos conselhos tutelares foram acionados visto que diversas vítimas são menores de idade. A rede estadual de ensino também deve se pronunciar e encaminhar as devidas providências junto as autoridades do Estado, assim como Ministério Público deve proteger estas jovens tanto das violências quanto das ameaças que estão sofrendo por terem a coragem de denunciar.

Mas é claro que os agressores não se calaram e tentam inverter os fatos, culpabilizar as vítimas, além de negar o que ocorreu. O assédio sexual é uma violência que se perpetua por meio do pacto de silêncio que protege os agressores. Quando rompido, espera-se que a sociedade, as instituições e as famílias acolham de modo humano aquelas que ousaram denunciar.

A CULPA NUNCA É DA VÍTIMA!

Diante da gravidade das denúncias tanto as que envolvem uma escola da rede estadual como outros casos, nós da MMM RS queremos demonstrar nosso REPÚDIO aos casos de assédio sexual e violência vividos pelas jovens da cidade de Nova Prata e Nova Bassano, assim como repudiamos todas as tentativas de calar as vítimas ou quem, no intuito de apoiar e não deixar que estas histórias sejam jogadas para baixo do tapete, estão criando espaços para que mais jovens tragam suas denúncias à luz de uma investigação e punição de todos os agressores. A escola, como representante maior da educação, base de qualquer processo transformador, deveria, no mínimo, aproveitar o contexto e o ensejo das denúncias, para iniciar um grande projeto de fortalecimento dessas meninas e uma mudança radical no pensamento do corpo docente e discente no que se refere às violências de gênero, lesbotransfobia e racismo.

MEXEU COM UMA MEXEU COM TODAS!

Depois que o espaço de denúncia foi criado, várias outras chegaram, pois toda a denúncia é direito legítimo e urgente de quem se sente violada. Quem assiste também tem obrigação de denunciar. Assistir e se calar é ser conivente com o agressor, é manter o opressor mais forte e encorajado a seguir derrubando corpos pelo seu caminho.

A MANUTENÇÃO DA VIOLÊNCIA NÃO SERÁ TOLERADA!

Exigimos que os agressores sejam responsabilizados por suas ações e que os poderes municipais se comprometam a promover estratégias e políticas de enfrentamento a todas as violências cometidas contra as mulheres. O primeiro passo para mudar este cenário de violência é reconhecer que ela acontece e que pode ser praticada por qualquer homem, dentro ou fora de casa.
Enquanto isso, continuaremos na luta contra o sexismo, o machismo, a misoginia, as lgbttfobias, o racismo e todas as formas de opressão e violência contra mulheres e meninas, sempre na luta por transformação, autonomia e liberdade.

Nova Prata, 03 de junho de 2020.

Marcha Mundial das Mulheres – Rio Grande do Sul.

terça-feira, 7 de março de 2017

AGENDA DA MMM PARA O 8 DE MARÇO


Companheiras marchantes,

Em primeiro lugar #Fora Temer e #Fora Sartori !
Entre retrocessos e o conservadorismos, temos visto como alguns valores atribuídos às mulheres são reforçados, como o controle sobre nossos corpos, a repressão e a violência sobre as mulheres além da criminalização do aborto. Vivenciamos incrédulas e indignadas o aumento dos crimes de ódio, os estupros coletivos, os estupros corretivos, o racismo, tudo isto aumentado em muitas vezes através da internet e as redes sociais.
Estamos resistindo todos os dias e lutando pra fazer valer nossa voz e sermos respeitadas.
Mais um mês de março começando e continuamos nas ruas, nas instituições e movimentos gritando contra este modelo patriarcal e capitalista que se alimenta das desigualdades e reforça tudo isto.
Agora, os Governos Golpistas estão colocando em prática velhas promessas, além de privatizar e extinguir políticas públicas, querem mexer nas aposentarias através da Reforma da Previdência Social – trazendo maior impacto sobre as mulheres pobres, as mulheres negras, as mulheres rurais, e impossibilitando que a juventude possa pensar um dia em aposentadoria; e ainda a Reforma Trabalhista, aumentando a precariedade sobre o trabalho, reduzindo direitos e aumentando a jornada de forma desigual.
Estamos nas ruas sempre, e não sairemos -  seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!
A nossa agenda para o mês de março, é construída coletivamente, a partir das nossas próprias ações e das nossas parceiras, onde estamos atuando conjuntamente.
  
Agenda de 5 a 15 de março

5/03 (dom) – Em Caxias do Sul – Aquece pro 8 de março e Pic-nic na Maesa

15h Ensaio da Batucada Feminista
Grupo de danças populares De Lá pra Cá
16h Roda de conversa – Mulheres: uma história de resistência
17h Oficina de stencil – Faça sua camiseta de luta contra a reforma da previdência e oficina de Abayomi

6/03 a 10/03 – em Sapucaia do Sul -  "Florescer e Resistir: I Semana Feminista do IFSul",  parceria MMM, Kizomba Lilás e ME.
6/03 (seg) – 9h–10h – Oficina de Batucada Feminista
15h–17h – Cine debate sobre aborto ( Documentário “Fim do Silêncio sobre o Aborto”) Mediadoras: Maria do Carmo (Marcha Mundial das Mulheres) e Natália Dória (Estudante de Serviço Social e Coordenadora Geral da UEE-livre)
20h–22h – Roda de Conversa: O feminismo mudando os rumos da educação

7/03 (ter) – 9h–11h – Roda de Conversa sobre “Mulheres e o Cárcere” – Mediadoras: Vanessa Gil (Doutoranda em Educação pela Unisinos e Marcha Mundial das Mulheres) e Gabriela Cunha (Marcha Mundial das Mulheres)
15h– 16:30 – Roda de Conversa sobre o machismo nas instituições de ensino
20h – 22h – Roda de Conversa Sobre Violência Doméstica – Debatedora: Anita Doria Lucas de Oliveira (Marcha Mundial das Mulheres)

9/03 (qui) - 20h – 22h – Feminismo Negro – Mediadora: Gerusa Bittencourt, militante do movimento ENEGRECER
10/03 (sex) 09h–11h – Roda de Conversa sobre as mulheres LBT
15h- 16:30 – Oficina de Batucada Feminista
20h- 23h – SARAU FLORESCER E RESISTIR

6/03 (seg) em Porto Alegre – parceria com Cinebancários
19hs agenda do cine bancárias – Filme Precisamos falar de assédio
Seguido de debate – participação da MMM, Themis e público presente

7/03 (ter)Oficina de lambes nos núcleos da MMM – orientamos para que cada núcleo se auto-organize de acordo com sua realidade local, e a executiva estadual enviará os materiais elaborados em parceria com os sindicatos e podem ser usados materiais elaborados localmente com as nossas pautas. Para participar é só entrar em contato com as articuladoras locais.
Já estão em elaboração:
Porto Alegre – contato com Alicia; Caxias – contato com Babi; Rio Pardo – Isadora; Rio Grande – Erika; Santa Maria – Aline.
Cada local deve produzir fotos e registros de sua atividade para que façamos uma divulgação unificada da ação em todo o RS

7/03 (ter) em Caxias do Sul – Cine denate “Revolução em Dagenhan –
18:30h no Sindiserv (Rua Carlos Giesen, 1217

7/03 (ter) em Porto Alegre - Sessão de cinema do documentário Ventre Livre – em parceria com o grupo Musas (Mulheres na Saúde)
Como evoluiu o direito reprodutivo da mulher nos últimos 20 anos no Brasil?
18h Debate com a realizadora Ana Luiza Azevedo (Casa de Cinema de PoA) e Denise Dora (Defensoria Pública RS). A MMM foi convidada para contribuir com o debate.
Local: Hospital de Clinicas de PoA – Auditório José Badi.


7/03 em São Leopoldo- Debate sobre os impactos da reforma da previdência na vida das mulheres, estamos construindo este espaço como uma forma de luta e resistência contra mais esse retrocesso. Leve seu chimarrão, sua vontade de dialogar e vamos resistir.
Como convidada para animar nossa roda teremos a militante feminista Carmen Sylvia Ribeiro.
Hora: das 18h às 19:30

Local: Unisinos Redondo
Evento: https://www.facebook.com/events/277294409359423/
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8/03 (qua) em Porto Alegre Mulheres contra a Reforma da Previdencia Social e pelo Fim da Violência

5:30 – Encontro na Ponte do Guaíba – Mulheres em marcha – vista uma camiseta PRETA  ou traga a sua contra a Reforma da Previdência.

8h30 – Ato em frente ao INSS – (atrás da Prefeitura nova, onde tem um terminal de ônibus)
Batucada feminista

10h – Grandes Debates na Assembleia Legislativa – Tema: Mulheres e a previdência social

12:30 – Ato de Apoio à Ocupação de Mulheres Mirabal – Av Duque de Caias n 380

13:30h – Ato Cultural no largo Glenio Peres

17h – Esquina Democrática concentração  - Ato : Mulheres Param em Defesa da Previdência Social por nenhum direito a menos
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8/03 pelo interior do Estado – todos os núcleos que nos enviarem suas agendas estaremos atualizando todos os dias

8 de março em Caxias do Sul – Mulheres contra a Reforma da Previdência
8:30h – Tribuna Livre no Grande Expediente da Câmara de Vereadores
10h – Concentração na Praça Dante Alighieri
11h Caminhada até o INSS
15:30 Aula Pública na praça – A Reforma da Previdência e o impacto na vida das Mulheres
18h Encerramento

8 de março em Bagé – Aposentadoria fica, Temer sai !!!
17h - Marcharemos pelo direito à aposentadoria digna!
Local: Praça do Coreto





















9/3 (qui) – em Viamão - Formação com as Mulheres da via Campesina ( interessadas fazer contato com a Maria do Carmo – vagas limitadas)

9/3 (qui) – em Torres – Seminário pelos direitos das Mulheres
19h  Aplicação Efetiva da Lei Maria da Penha e a violência contra as mulheres – com Sirlanda Selau e os Impactos das Reforma da Previdência e Trabalhista sobre a vida das mulheres com Cláudia Prates
                       
9/03 (qui) em Porto Alegre – Lançamento da POLÍTICA DE EQUIDADE DE GÊNERO, RAÇA E DIVERSIDADE - Tribunal Regional do Trabalho da 4a. Região
16hs - Cerimônia - com show da Marieti Fialho - de lançamento da Política e comemoração de 01 ano do Trabalho de Equidade, quando inauguraremos o ANO DA DIVERSIDADE DO TRT4
Local: Av. Praia de Belas, 1432
Obs: Quem quiser participar mande mensagem para Naiara pois precisa providenciar os convites oficiais

11/03 (sab) Em Caxias do Sul – Cine debate – As Sufragistas
09h – Com Monica Montanari e Paula Grassi
Local: Auditorio da Faculdade Anhanguera (Av. Alexandre Rizzo, 505)

11/03 - em Porto Alegre - Feira Feminista e Solidária - Sindicato das Bancárias de Porto Alegre - Participe!!! Terão apresentações culturais

FEIRA CASUAL - Feira de economia solidária feminina. Um lugar para criar e fortalecer relações, divulgar produtos e serviços, curtir boa música, comida e arte!
Expositoras:

15/03 – em Porto Alegre – Procuradoria da Mulher da Câmara convida:
14 hs – Quarta temática : Mulheres,  Trabalho e Previdência. Convidadas:  Aline Klemt   e  Irene Galiase, socióloga responsável pelas publicações Mulher e Trabalho- FEE e  Maira Motta – Advogada OAB.

15/03 – Dia Nacional de Luta contra a Reforma da Previdência – ATO EM DEFESA DA APOSENTADORIA .
18h na Esquina Democrática
Veste tua camiseta e vem pra rua. Em todas as cidades, precisamos dizer basta de cortarem nossos direitos.
Contatos com a MMM RS:
Blog: http://mmm-rs.blogspot.com.br/
Email: marchamundialrs@gmail.com
Facebook: www.facebook.com/MarchaMundialRS

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Misoginia: uma psicopatia estruturante da sociedade Patriarcal

*Por Bruna Rocha e Maria do Carmo Bitencourt

Ação da MMM Campinas
Mulheres reunidas em Campinas-SP em repúdio à chacina feminicida ocorrida na cidade
É duro perceber que somente nos casos mais brutais de ódio, a luta das mulheres contra a violência cotidiana do Patriarcado tem ressonância na sociedade. Ainda assim, há uma disputa intensa de narrativa sobre qual razão, motivo ou circunstância especial leva um homem a matar a mãe de seu filho, seu filho e toda a família dela e se suicidar em seguida. Os jornais da grande mídia insistem em generalizar o crime como um ato de psicopatia, já que uma chacina não poderia ser classificada, explicada pelo argumento já cĺássico da passionalidade, perda momentânea da consciência ou perda da sanidade por excesso de “amor”. Teses defendidas e bem elaboradas nos blogs, colunas e mídia em geral, dominada pelos homens intelectualizados, ainda que a carta que o exterminador de Campinas deixasse nítido suas motivações misóginas e fascistas.
Na Bahia, três dias depois da chacina em Campinas, um homem incendiou sua própria família dentro de casa em Feira de Santana. O crime, relatado pela sua esposa, que sobreviveu com muitos ferimentos à tentativa de feminicídio, teve um nítido caráter de crueldade e misoginia. O assassino ateou gasolina no corpo da mulher e de todas as pessoas que estavam na casa (uma mulher grávida e o restante, crianças, algumas delas seus próprios filhos), trancou-as e tocou fogo, mesmo diante do pedido desesperado da mulher para que não fizesse aquilo.
Pois bem, se a sociedade insiste em tipificar os feminicidas como doentes mentais que sofrem de transtornos psicológicos e sociológicos, tratemos aqui do machismo como uma doença sim, uma psicopatia social que atinge homens e mulheres, pois desumaniza aqueles e submete estas, podendo muitas vezes nos levar à morte. (Dados do Mapa da Violência de 2015 mostram 13 feminicídios diários).
Pensar nesta doença social não nos remete apenas às características dos indivíduos, às subjetividades das pessoas, aos comportamentos humanos e práticas culturais dos homens, sobretudo, à um Estado de Violências profundamente institucionalizado. Falar da Chacina Feminicida de Campinas e em Feira de Santana (nome correto) é falar da negligência do Estado perante à violência permanente à qual nós, mulheres, estamos expostas. A saga de perseguição e cerceamento da liberdade da vítima de Campinas não começou na noite do dia 31 de dezembro de 2016, mas já vinha desde a sua opção em se separar de seu algoz, em 2012. De lá para cá, foram cinco boletins de ocorrência, uma verdadeira travessia no sistema de Justiça por proteção para si e para seu filho, que esta mulher enfrentou até o dia de sua morte trágica. Com certeza, era semelhante a situação da família na Bahia.
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Foto: Jornalistas Livres/Reprodução do Facebook
Notícias na internet e nos grandes jornais de televisão insistem em ratificar que a vítima de Campinas negou ser beneficiária das medidas protetivas que a Lei Maria da Penha poderia lhe assegurar, mas nenhum destes veículos aprofundou a investigação sobre a incongruência de uma mulher que teve a coragem de se separar de um agressor ameaçador, que teve coragem de denunciá-lo à Polícia e à Justiça, ter recuado diante da medida protetiva. Quantas ameaças ela não deve ter sofrido para tomar essa dura decisão. E se ela tivesse aceito, estivesse sobre proteção do Estado, será que estaria viva hoje? Afinal na maioria das vezes o papel que o judiciário emite garante o que mesmo na prática? Garante nenhuma proteção policial mais rápida ou atendimento especializado nos raros Centros de Referência em Atendimento às Mulheres em Situação de Violência no país. Garante abrigagem em casa protegida só quando já somos sobreviventes de atentados à vida ou ameaças graves, isso se houver Casa Abrigo, se houver vaga e se a mulher em meio ao desespero e caos solicitar, convencendo as autoridades de sua situação de extremo risco. Neste momento quem tem uma familia protetiva e acolhedora escolhe ficar neste lugar, pois mesmo sabendo das intenções violentas deste homem, todas só queremos acabar com este sofrimento e seguir em frente, desejo de liberdade e autonomia negado às mulheres pela sociedade e o Estado que necessita das mulheres submissas em casa, no trabalho reprodutivo e de cuidados.
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Jornalistas Livres/Reprodução do Facebook
Acreditamos que as políticas conquistadas a partir do tensionamento promovido pelas lutas das mulheres contra o Estado Patriarcal, a exemplo da Lei Maria da Penha e da Lei do Feminicídio, foram e são fundamentais para o acúmulo histórico do feminismo na construção de uma sociedade livre da violência misógina. Por outro lado, sabemos que as tensões existem nas duas vias, e há muita resistência do Estado em assimilar estas leis afirmativas e igualitárias em suas estruturas retrógradas e conservadoras. Sabemos que ainda não existem o mínimo de equipamentos necessários, suficientemente qualificados para lidar com as violências estruturantes da sociedade patriarcal e a reinserção social das mulheres que, geralmente, são praticamente encarceradas, distanciadas de suas famílias e ciclos sociais, para que possam se proteger do agressor
É fundamental fazermos um debate sistêmico sobre a Chacina Feminicida de Campinas e Feira de Santana. O Patriarcado está em todas as atitudes do atirador misógino: na violência com que tratava sua mulher, na sua concepção racista e fascista de Estado explícita em suas opiniões sobre o sistema carcerário do Brasil, o qual chamava de “paizeco” em sua carta, na violência sexual que praticou contra seu próprio filho, na forma como se referia às mulheres e ao feminismo, à legislação que deve nos proteger, apelidando-a macabramente de “Lei Vadia da Penha”. O mais interessante e importante para pensarmos o quanto este tipo de feminicida é comum e camuflado em nossa sociedade patriarcal é a entrevista do vizinho do assassino, o qual discorre sobre uma conduta “tranquila”, “normal” e “alegre” que o homem tinha em seu dia a dia. Psicanalistas talvez dirão que estes são sintomas de uma ou outra doença neuropsicológica. Nós, mulheres alvos da violência cotidiana, afirmamos com certeza: esta doença é social, é racional e atende à um projeto de poder. Essa doença se chama machismo e sim, ela também mata homens, mas é feita para matar mulheres. Continuaremos em marcha, resistindo e gritando nas ruas e nas redes: A violência contra a mulher não é o mundo que a gente quer!
*Bruna Rocha e Maria do Carmo Bitencourt são militantes da Marcha Mundial das Mulheres

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Chacina em Campinas foi provocada pela misoginia



Na madrugada da virada do ano de 2017, Sidnei Araújo invadiu uma casa no interior de Campinas onde acontecia uma festa de réveillon. Matou a ex-esposa, o filho e mais dez pessoas, entre membros da família, amigas e amigos. O assassino se matou e deixou uma carta amplamente divulgada pela grande imprensa. No documento ele atribuía à ex-esposa, Isamara Fillier, a culpa da violência brutal que cometeu.

As mulheres de todo o mundo ecoam suas vozes dizendo “Nem uma a menos, vivas nos queremos” porque queremos erradicar o machismo, a misoginia e queremos viver livres de violência. Conhecemos a violência patriarcal porque vivemos cotidianamente suas manifestações. Nossas lutas contra tal violência nos mostram que ela está entranhada nas práticas sociais, nas instituições, nas mentes. Convivemos permanentemente com a negligência das instituições e das pessoas em geral porque naturalizam a violência, porque as mulheres estão sempre sob desconfiança. Até mesmo em casos hediondos, como na chacina de Campinas, a primeira tendência é buscar os supostos erros das mulheres. Estamos sempre em vias de sermos acusadas ou transformadas de vítimas em culpadas.

É com essa compreensão que nós da Marcha Mundial das Mulheres manifestamos nossa indignação em relação a chacina cometida em Campinas. Foi um crime premeditado, planejado, que utilizou de vários artefatos. Portanto, um criminoso que anunciou a uma ou mais pessoas que cometeria o crime, sem nenhum impedimento ou constrangimento para dar seguimento a seu plano. O assassino expressou na carta seu ódio às mulheres, ao feminismo e às leis que o impediam de subjugar sua ex-esposa.

O fato de que ela teve que recorrer a todos os mecanismos legais contra ele, denunciando abuso sexual do filho, pedindo e conseguindo medidas judiciais de proteção em relação aos dois é uma demonstração inquestionável da violência e de que a reação brutal dele se deu em função de não ter a posse dela e do filho.

Nesse momento em que expressamos nossa solidariedade aos familiares, amigas e amigos das vítimas, queremos também declarar nosso repúdio à banalização da violência contra a mulher. Reiteramos que essa escalada conservadora, que se expressa no aumento da violência em geral, e em particular no feminicídio, está diretamente ligada aos enfrentamentos que travamos ao patriarcado. Por isso reafirmamos nossa luta para que os governos avancem em políticas de combate à violência machista, da implantação de um projeto de educação não sexista, impedindo que continue o desmonte em curso de várias políticas.

É fundamental a apuração total desse crime e que o conjunto da sociedade, dos governos, dos meios de comunicação, dos movimentos sociais se comprometam com erradicação da violência. Nós mulheres seguiremos em marcha contra todas as formas de opressão e violência. A reação patriarcal não nos deterá e só fará que juntemos mais força e mais mulheres nessa marcha.

Basta de cumplicidade, basta de omissão!!! Não há desculpas que justifiquem a violência.

Marcha Mundial das Mulheres
03 de janeiro de 2017