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domingo, 10 de maio de 2015

O mito da mulher maternal, artigo da Revista Fórum

Por Jarid Arraes


Nossa cultura ainda insiste em clichês e mentalidades sexistas que ditam a maternidade como algo inato a todas as mulheres. As consequências nocivas dessa lógica são muitas: reduzir todas as mulheres ao papel de mãe faz com que as garotas absorvam, desde cedo, comportamentos limitados e submissos, aguardando o suposto inevitável dia em que se tornarão mães. Mas o que é, afinal, um comportamento materno?
O mito da mulher maternal
Existem muitos tipos de mães na nossa sociedade. Há aquelas que adotam métodos educacionais libertários, outras que preferem criar seus filhos em modelos conservadores; há mães que não exercem uma autoridade rígida sobre as crianças ou ainda que são controladoras e até mesmo rudes com seus filhos. O comportamento dessas mulheres varia de acordo com a personalidade e subjetividade de cada uma delas; é por isso que existem tantas formas de ser mãe, variando entre o afeto e a compreensão a até mesmo atitudes violentas e criminosas.
No entanto, a personalidade “maternal” que a sociedade atribui às mulheres se limita aos atos de cuidado e servidão, frequentemente associados a um padrão submisso de comportamento. Não por acaso, esse conceito de maternidade está intimamente relacionado à ideia naturalizada de que mulheres devem ser brandas com os homens, mesmo em situações em que eles são grosseiros ou abusivos. Segundo esses valores machistas, a mulher deve ser paciente, didática e acolhedora. Mulheres que são assertivas, que se posicionam de maneira contundente e que não fazem nenhuma questão de tratar o machismo com panos quentes, acabam sendo hostilizadas, expostas como descontroladas e “histéricas”. E muita gente nem mesmo percebe o sistema misógino escondido por trás desses padrões.
A maternidade não é um dom, tampouco um dom atribuído às mulheres de maneira universal. É preciso entender que muitas mulheres não querem ser mães e que, muitas vezes, suas personalidades e aspirações de vida não estão voltadas para um suposto “instinto materno”. Ser mãe é um processo árduo de aprendizagem. Não existem mães perfeitas e nenhuma mulher nasce sabendo como ser mãe.
Além disso, a própria ideia de postura maternal deve ser objeto de reflexão, sobretudo quando desbanca para mulheres que não são mães ou em contextos onde elas não estão lidando com seus filhos. Nenhuma mulher tem a obrigação de agir como mãe dos seus parceiros, colegas de trabalho ou de debate. Nenhuma mulher é obrigada a tratar homens como filhos, agindo de maneira protetora, infantilizada ou incondicionalmente paciente. Essa lógica machista precisa ser destruída.
É fato que ainda temos muito o que debater e compreender a respeito da maternidade e do papel de cada mãe. Ainda não aprendemos a respeitar as nossas próprias mães e menos ainda as mães dos outros. Ainda são impostas cargas absurdas para que as mães de nossa sociedade carreguem e ainda exigimos delas o impossível. Ainda assim, devemos trabalhar para que as mulheres, sejam elas mães ou não, sejam vistas como indivíduos únicos, singulares e completos, sem a necessidade da maternidade e sem a exigência de um padrão maternal em seus comportamentos.

Mais sobre maternidade:
As mães criam filhos machistas?
Se amamos tanto as mães, por que as tratamos tão mal?
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Foto de capa: Reprodução / Facebook

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O anticoncepcional e a vida das mulheres, por Raquel Duarte

por Raquel Duarte*

No início deste mês, nós da MMM/Caxias do Sul fomos surpreendidas com uma notícia que nos deixou muito tristes e indignadas. Uma companheira feminista contraiu trombose no braço, provavelmente pelo uso do anticoncepcional Diane 35. Confira a aqui a reportagem: http://www.folhadecaxias.com.br/noticia/Os+riscos+de+uma+pilula+ainda+aceita+aqui/3100
Ficamos tristes pelo estado de saúde da nossa companheira (que recebeu alta e se recupera bem!) e indignadas por ver mais uma consequência desta sociedade capitalista e patriarcal que tem o lucro com principal objetivo, sem se preocupar com a vida das pessoas.

Após muitos anos de comercialização desta pílula anticoncepcional em todo o mundo, foi preciso a morte de diversas mulheres, e outras centenas de casos de trombose para que finalmente um país resolvesse ir mais a fundo na discussão sobre os reais riscos do uso desse tipo de tratamento de reposição hormonal.  
E olha que esse tema não é nenhuma novidade, inclusive, nas ‘bulas’ de praticamente todos os anticoncepcionais constam o alerta referente ao risco de trombose arterial ou venosa. Outra informação que consta nas bulas é referente ao perigo de fumar e tomar o anticoncepcional.

Aí fica um questionamento: como pode a indústria farmacêutica não ter evoluído nesse sentido, de aprimorar os anticoncepcionais, de criar outros métodos seguros de prevenção da gravidez? E mais, por que são as mulheres que devem controlar sua fertilidade com anticoncepcionais que alteram totalmente seus hormônios e enfrentar os efeitos colaterais e os riscos de saúde?
Todos sabem que fumar faz mal à saúde, mas para as mulheres pode ser mortal. E não por complicações ligadas ao pulmão e respiração como se espera. E sim, por tentar se prevenir e não engravidar, tomando anticoncepcionais (método mais recomendado por todos/as os/as ginecologistas além da camisinha que também previne doenças).

Foi proibida na França a venda do Diane 35, e provavelmente outros países siga o mesmo exemplo. Mas de que adianta a proibição deste em específico se vários outros contêm os mesmos componentes que causam riscos à saúde da mulher? De nada adianta. O que precisamos é de uma transformação na medicina e na indústria farmacêutica. Precisamos é de mais investimentos em pesquisas referente à saúde da mulher, para que produtos em que haja a mera suspeita de riscos de vida seja de imediato proibida a comercialização.
Enquanto isso, a nós mulheres resta apenas fazer um opção: fumar, tomar anticoncepcional, contar só com a camisinha, engravidar??? Afinal, se a tarefa do cuidado e da educação já é uma tarefa culturalmente imposta às mulheres, a tarefa da prevenção da gravidez seria de quem, não é?

Para entender melhor sobre o tema dos anticoncepcionais, leia o texto “O Diane 35 e nossas escolhas” de autoria da companheira Ana Cristina Pimental, no blog da Marcha Mundial das Mulheres - Feminismo 2.0 até que todas sejamos livres: http://marchamulheres.wordpress.com/2013/02/15/o-diane-35-e-nossas-escolhas/

* Raquel C. P. Duarte – advogada e militante da Marcha Mundial das Mulheres/