sábado, 11 de abril de 2015

Sobre a redução da maioridade penal

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*Por: Iolanda Toshie Ide
É grande o número de adolescentes vítimas de violências e assassinatos. Pelo contrário, o número de jovens acusados de homicídio é muito menor: 4% dos internados na “Fundação Casa”. Em vez da sociedade se preocupar em aprimorar os meios de proteção aos adolescentes, alguns parlamentares buscam instrumentalizar parte da sociedade contra os adolescentes.
As prisões estão superlotadas e seus egressos têm 70% reincidência. Instituições para adolescentes em conflito com a lei, embora não sirvam de exemplo, exibem 25% de reincidência. Colocá-los junto a adultos é, pelo menos, expô-los a uma aprendizagem da criminalidade.
É importante lembrar que adolescentes estão ainda em formação e devem ter chance de elaborar sua personalidade com a ajuda de adultos minimamente sadios. Quando adolescentes entram em conflito com a lei é de se perguntar se adultos com obrigação de educá-los não terão sido pouco responsáveis. Punir com prisão para adultos é desrespeitar o direito de elaboração da própria personalidade desconhecendo o desenvolvimento psico-social de adolescentes.
Não escolhemos a família onde nascer e crescer. Se alguns se comportam de maneira desviante, compete à sociedade oferecer-lhes oportunidades para que não façam ao outro o que não desejma que seja feito para si. A aprendizagem da reciprocidade é longa e complexa: por isso requer a colaboração de adultos/as que eduquem as novas gerações.
As corporações de comunicação hegemônicas, alinham-se aos interesses de fabricantes de armas, divulgando o medo, espetacularizando crimes e acusando quem menos é culpado pela violência. Faz da punição não a busca de justiça, mas a satisfação de desejos sádicos, submetendo-se aos lucros das indústrias de armas.
Países que reduziram a maioridade penal não diminuíram a violência, pelo contrário, acirrou-a. Enquanto em alguns países se considera que a idade adulta começa a partir de 25 anos de idade, no parlamento do Brasil caminha-se na contra-mão. Quanto menor é o nível de reflexão, maior é a adesão à redução da maioridade penal.
*Iolanda Toshie Ide é militante da Marcha Mundial das Mulheres em Campinas.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Somos contra o PL 4330 das terceirizações! Por mais direitos e nenhum a menos para as trabalhadoras!

Por: Maria Júlia Montero e Thaís Lapa*

Desde o início do ano, temos visto uma grande avalanche de retrocessos com relação aos direitos da população no Brasil: a aprovação das medidas provisórias 664 e 665, que reduzem direitos previdenciários, especialmente a pensão por morte, e trabalhistas como o seguro-desemprego; o avanço da PEC 352/2013, apelidada de “PEC da Corrupção” pois prevê uma contrarreforma política que entre outras coisas legaliza o financiamento empresarial de campanhas eleitorais; a possibilidade de estabelecimento de um dia do orgulho heterossexual, o avanço da regulamentação da prostituição. Além disso, e a regulamentação do aborto não parece estar num horizonte próximo – muito pelo contrário.
Para coroar esse processo, foi aprovado nesta quarta-feira (8), por 324 votos a 137, o projeto de lei 4330, que prevê a regulamentação da terceirização do trabalho em nosso país. Apresentado em 2004 por Sandro Mabel (PMDB-GO e herdeiro da indústria fábrica de biscoitos Mabel, uma das maiores da América Latina), o projeto tem como eixo central permitir a terceirização irrestrita, isto é, de todas as atividades nas empresas, inclusive a atividade-fim, a atividade principal da empresa.
Centrais sindicais já vinham se mobilizando contra o projeto e, na noite de 7 de abril, data em que o projeto foi colocado em pauta em caráter de urgência pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, haviam ocorrido em todo o país manifestações e greves contra o PL 4330, bem como contra a retirada de direitos via MPs 664 e 665 e em defesa reforma política através de uma constituinte que acabe com o financiamento empresarial de campanhas, para que a política em nosso país não seja mais sequestrada pelos interesses econômicos dos patrões. Com esta aprovação de um dos maiores retrocessos nos direitos trabalhistas no nosso país, já está prevista manifestação nacional em 15 de abril, convocando a paralisação nos locais de trabalho em protesto contra o PL4330 em conjunto com protestos dos movimentos sociais.
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Entenda os impactos da terceirização irrestrita para as/os trabalhadoras/es
Embora o trabalho terceirizado não seja regulamentado no país, o enunciado 331 do TST (Tribunal Superior do Trabalho) já permite contratar empresas terceiras para realizar serviços não considerados atividade-fim, ou trabalhos auxiliares, como vigilância, manutenção, preparação ou fornecimento de alimentação, transporte e conservação e limpeza. Como sabemos, as mulheres ocupam os postos de trabalhos mais precarizados do nosso país, especialmente as mulheres negras. São as que têm menor segurança no trabalho, salários menores, e também são as maiores atingidas pela terceirização (70% de cerca de 12 milhões de terceirizadas/os). Como exemplo desta relação íntima entre terceirização e precarização, o trabalho em limpeza terceirizado, em geral realizado por mulheres, dá às empresas a liberdade de demitir com maior facilidade (pode exigir “troca” de funcionárias), desobriga-a da garantia de direitos como férias, creches e escolas para filhos das trabalhadoras e rebaixa os salários, tão baixos a ponto de ser proveitoso para as intermediárias apenas gerir a subcontratação, já que vivem da diferença entre o que recebem da tomadora do serviço e o que pagam à trabalhadora. Sem contar que o caráter coercitivo de vínculo frágil deste trabalho faz as funcionárias, em geral, inibirem-se na resistência e na luta por direitos. Tais elementos, entre uma série de outros, já mostram os efeitos negativos às e aos trabalhadoras/es da terceirização já “permitida”.
Há também casos de contratação de trabalho terceirizado do que é a atividade principal da empresa, o que, até a aprovação do PL 4330, é irregular. Na cadeia de confecções, cujo trabalho de costura é predominantemente feminino, a presença das mulheres é massiva nas pequenas oficinas para onde as fábricas terceirizam parte do processo de costura. O trabalho terceirizado é aí, como em praticamente todos os casos, sinônimo de precarizado: pagamento ínfimo e por peça, o que implica em longas jornadas em geral em condições insalubres para se ganhar o mínimo para a sobrevivência, trabalho de menores de 16 anos, ausência de direitos trabalhistas e de possibilidade de organização sindical. Embora irregulares, tais oficinas costumam sustentar o setor de confecções em diversas regiões do país. Outro exemplo é o de muitas montadoras de celulares e outros produtos eletroeletrônicos, onde também há uma combinação entre terceirização e trabalho realizado por mulheres: as partes do processo de fabricação de eletroeletrônicos que passam a ser terceirizadas – reduzidos na empresa matriz e ampliados nas terceiras – são na montagem e reparo dos celulares, setores majoritariamente femininos. Trabalhadoras das terceirizadas ganham menos para fazer os mesmos trabalhos realizados na empresa matriz, além de terem, também, maiores jornadas maior instabilidade no emprego e maior propensão a sofrerem assédio moral.
Deste modo, embora a prática da terceirização seja apresentada como um meio de contratar especialistas em determinados serviços para que as empresas se foquem em sua atividade principal, o que se evidencia é que esta prática serve para a redução de custos para as empresas por meio do rebaixamento salarial: conforme dados do Dieese, quem trabalha em terceirizadas ganha quase 1/3 a menos do que quem não é, e segundo a Confederação Nacional da Indústria, 91% das empresas terceirizam para reduzir custos, e. A terceirização nada mais é, assim, do que uma forma de baratear a produção colocando os custos nas costas das/dos trabalhadoras/es.
Além disso, a terceirização serve como mecanismo de externalização dos conflitos trabalhistas. Como as/os empregadas/os têm vínculo empregatício direto com a terceira, procura-se colocar para ela a responsabilidade pelos direitos trabalhistas – inclusive quando a terceira somente produz para a contratante. Além disso, a terceirização por implicar em fragmentação sindical: sendo de empresas diferentes, realizam-se manobras para a não sindicalização das/os trabalhadoras/es terceirizados no sindicato da empresa matriz (maior, em geral mais consolidado e com mais força para realizar reivindicações). Em 2011, por exemplo, a Costech Engenharia, contratada exclusiva da Samsung para montagens de celulares em Campinas, retirou-se do complexo Samsung, instalando-se em Valinhos (cidade vizinha), alterou a finalidade estatutária da empresa de “montadora de equipamentos metalúrgicos” para “prestadora de serviços de montagem” e mudou irregularmente o enquadramento sindical de suas/seus funcionárias/os para funcionários de empresas de serviços – quando, sendo metalúrgicas/os e realizando trabalho idêntico ao de funcionárias/os da Samsung, eram representados/as pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas. Tal mudança de enquadramento para externalizar o conflito, neste caso, pôde ser revertida pela resistência das trabalhadoras da terceirizada, que com apoio do sindicato conseguiram garantir a mesma representação sindical os mesmos direitos das trabalhadoras da empresa matriz.
Mas esta é uma situação incomum, ou seja, em geral o elo mais fraco, as/os trabalhadoras/es das empresas subcontratadas, se prejudicam nos processos de terceirização. Assim, a fragmentação sindical resultante muitas vezes das terceirizações é uma forma de fragilizar os sindicatos e o próprio conjunto de trabalhadoras/es de um setor, dificultando a luta da classe trabalhadora por mais direitos, abrindo caminho para as empresas burlarem a legislação trabalhista. A terceirização se evidencia deste modo como um dos mecanismos utilizados pelas empresas, com apoio do Estado (pela omissão da fiscalização), para flexibilizar a gestão da produção de forma favorável às empresas – resultando em diminuição dos direitos trabalhistas, instabilidade no emprego, menor segurança no trabalho e pior remuneração.
Terceirização_EduardoCunhaAs empresas têm todo interesse em aprovar o PL 4330 e houve condições plenamente favoráveis de aprová-lo no Congresso atual, onde bancada do empresariado cresceu substancialmente nas últimas eleições. Não é à toa que a FIESP, representante de patrões industriais no país, reivindica este projeto como benéfico às/aos trabalhadoras/es, como gerador de empregos. Tal defesa oculta que possíveis empregos criados seriam ainda mais precários, assim como que o PL4330 permite que apenas o nome do negócio seja mantido e todo o seu interior seja formado por terceiros Vale dizer que hoje em dia, as empresas já procuram escapar da garantia de direitos previstos na CLT (Consolidação dos Direitos Trabalhistas) “pelas bordas” e com a aprovação deste PL, passam a ter abertamente a liberdade de promover a redução de salários, direitos e possibilidades de resistência da classe trabalhadora.
Considerando que as mulheres já ganham 30% menos que os homens e já são a maioria das funcionárias terceirizadas, que cenário se pode prever para as trabalhadoras brasileiras com a aprovação de uma lei que torna a terceirização uma prática sem restrições, a ser aplicada “ao gosto” e em benefício dos patrões? Por esta razão, é fundamental o engajamento dos movimentos feministas nas lutas contra a terceirização irrestrita colocada pelo PL 4330, um projeto de interesse da empresas, que fere os direitos da classe trabalhadora como um todo, mas de forma especial os das mulheres. Assim como é fundamental o envolvimento na luta sindical e popular mais ampla para que as mulheres tenham condições de trabalho dignas, sem retirada de direitos, com garantia dos direitos já previstos atualmente e com ampliação dos mesmos, aprovando, por exemplo, projetos contra a discriminação salarial por gênero que prevêem salário igual ao dos homens pelo mesmo trabalho (PCL 130/11) – um dos quais Eduardo Cunha, presidente do Congresso mais conservador desde 1964, não tem a menor pressa em colocar em pauta.
Lutar por direitos e por nenhum direito a menos é preciso!
Havia alternativas possíveis para regulamentar a terceirização, como colocar em pauta os projetos apresentados por Vicentinho em 2007 para se contrapor ao PL 4330 ou outro construído em 2009 por centrais sindicais, juntamente com o Ministério da Justiça, o Ministério do Trabalho e a Secretaria de Assuntos Estratégicos, que prevêem a proibição da terceirização da atividade fim das empresas, bem como colocam a garantia da igualdade de condições salariais e de direitos entre os terceirizados e os não terceirizados. O conteúdo de tais projetos é favorável às/aos trabalhadoras/es: já que a terceirização tem entre seus objetivos centrais baratear custos, essa legislação tornaria o processo de terceirizar pouco atrativo para as empresas. Porém, como o interesse do atual congresso não é defender quem é trabalhadora/or, o projeto levado à pauta e aprovado foi o 4330, que fragiliza gravemente os direitos de quem trabalha.
Diante deste cenário, não há outra opção senão resistir! Nos mobilizemos no dia 15 de abril e em quantos dias forem necessários! Barremos a terceirização irrestrita que traz como horizonte ainda mais precarização do trabalho e sejamos firmes contra todo e qualquer projeto de lei que retire direitos das mulheres!!
Nós da Marcha Mundial das Mulheres, sempre em defesa da autonomia econômica das mulheres, seguiremos em marcha até que todas sejamos livres da opressão-exploração do capitalismo-patriarcado!
* Maria Júlia Montero é militante do núcleo Helenira Resende da MMM (São Paulo) e Thaís Lapa é militante do núcleo ABC da MMM (São Paulo)

terça-feira, 7 de abril de 2015

Trabalhadoras em luta por igualdade, liberdade e autonomia

*Por Letícia Raddatz

Entre os dias 27 e 29 de março de 2015, mais de 500 trabalhadoras de todo o país se reuniram em Brasília, no 8º Encontro Nacional das Mulheres da CUT, que teve como tema “Trabalhadoras em Luta por Igualdade, Liberdade e Autonomia”. No encontro foram debatidas questões como políticas públicas e o papel do Estado para as trabalhadoras da cidade, do campo, da floresta e das águas. O encontro foi aberto para todas as mulheres que quiseram participar, oportunizando para muitas delas o primeiro contato com o feminismo.
O objetivo do encontro foi estabelecer estratégias e ações a serem incorporadas nas pautas e lutas prioritárias da Central Única dos Trabalhadores (CUT), a aplicação da paridade de gênero nas instâncias da Central e o fortalecimento, organização e mobilização das mulheres para avanços e ampliação de direitos, assim como a construção coletiva com demais movimentos de mulheres.
Esse evento, organizado pela Secretaria Nacional de Mulheres da CUT, foi resultado de um processo de encontros estaduais, nos quais foi debatido um texto base previamente elaborado. Dos debates estaduais resultaram propostas de alterações e emendas para serem debatidas em nível nacional.
Encontro Nacional de Mulheres da CUT
Encontro Nacional de Mulheres da CUT
O texto final, resultado do processo democrático, descentralizado e participativo, contempla os objetivos e as estratégias de luta das mulheres cutistas para o atual período, tocando em temas cruciais para a classe trabalhadora como a democratização da mídia, a reforma política (com o necessário recorte de gênero), além da luta pela legalização do aborto e o direito ao próprio corpo. De maneira estratégica, o centro do debate foi a implementação da paridade de gênero nas direções da CUT em nível nacional e estadual.
Os debates foram fomentados por diversos painéis “Conjuntura nacional e internacional e os impactos para a vida das mulheres”, “Paridade: Por uma nova democracia sindical!”, “Democratização do Estado, reforma política, democratização dos meios de comunicação e a luta feminista”, “Trabalho e Autonomia: A presença das mulheres no mundo do trabalho e a situação das mulheres negras”.
Nós, mulheres da Marcha Mundial das Mulheres estivemos representadas por muitas militantes de diversos segmentos de trabalhadoras. Na noite do dia 28, as militantes da MMM se reuniram para debater sobre a 4ª Ação Internacional de 2015.
Dentro do movimento sindical, como em todos os espaços da sociedade, as mulheres sofrem com o machismo. Mesmo em categorias majoritariamente femininas, o que ocorre é o predomínio dos homens nos cargos de direção dos sindicatos. E quando as mulheres compõem as direções, geralmente é nos cargos de menor poder e visibilidade.
Assim, o dia-a-dia da luta sindical configura-se como um desafio especial para as mulheres. Nos embates políticos típicos das instâncias sindicais, os homens reagem das maneiras mais violentas quando elas argumentam posições contrárias às deles. Vão desde questionar a sua qualificação para o debate até tentar abafar seus argumentos aos gritos.
A participação das mulheres nas atividades sindicais é muitas vezes dificultada pois os horários e locais são pensados sem considerar que ainda são as principais responsáveis pelo trabalho doméstico, fruto da manutenção machismo e patriarcado. Além disso, para elas as longas viagens para conferências, congressos e outros fóruns, nos quais são debatidas as políticas e as pautas de luta, são mais difíceis porque a educação dos filhos e demais cuidados da família ainda são considerados papel feminino.
Ainda é comum a naturalização de casos de assédio moral, sexual, e demais violências contra a mulher, muitas vezes reproduzidos desde as bases até os ambientes sindicais. Já se registrou até mesmo casos de violência física dos homens contra as mulheres dentro dos sindicatos.
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Mulheres dirigentes da CUT
Para fazer frente a essa situação nós, mulheres cutistas, focamos estrategicamente no debate sobre a paridade de gênero nos cargos de direção da CUT. Entendemos que conquistando a paridade neste âmbito, poderemos avançar apoiando, incentivando e empoderando as mulheres trabalhadoras para que assumam o protagonismo na luta sindical, concorrendo aos cargos de direção dos seus sindicatos e fazendo gestões que contemplem as pautas da mulher trabalhadora.
O feminismo é muito mais amplo e revolucionário do que as pautas sindicais. Mas é importante que as mulheres ocupem o seu espaço dentro da organização sindical, já que são trabalhadoras que ganham comprovadamente menos do que os homens pelo trabalho “produtivo” e sua jornada engloba também o trabalho “reprodutivo” não remunerado no âmbito doméstico e familiar.
Oprimidas duplamente, pelo machismo e pelo capitalismo, as mulheres trabalhadoras não podem esperar que os homens defendam as suas reivindicações. Não esperaremos. Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres.
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*Letícia Raddatz, é bancária, dirigente sindical e militante da Marcha Mundial das Mulheres no Rio Grande do Sul.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Somos todas clandestinas

Por Yara Manolaque

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Diariamente, nas diversas mídias, circulam notícias, relatos e denúncias de inúmeras violências realizadas contra as mulheres. Como nós, mulheres, conseguimos ainda cumprir com nossas tarefas cotidianas, sejam elas domésticas ou não?!
É sofrível levantar da cama, olhar para o espelho e pensar: mais um dia para enfrentar olhares, insultos, fiu-fiu, expressões insinuantes, ruas escuras, piadas machistas, lesbofóbicas, transfóbicas e racistas, violência sexual, violência doméstica, diferença salarial, violência nas redes sociais, ou seja, as mais diversas agressões advindas de indivíduos, do Estado e de instituições, que deveriam prezar pela proteção, valorização e respeito às mulheres.
Quando queremos, geramos filhas e filhos, que venderão sua força de trabalho ou serão exploradxs para a manutenção do sistema capitalista. Somos nós mulheres, do campo ou da área urbana, que, muitas vezes, sustentamos os lares com nosso trabalho doméstico, formal ou informal.
Somos nós que educamos, orientamos, cuidamos, protegemos os indivíduos da instituição família, principalmente nos moldes heterossexual e patriarcal. É muito peso. Muita dor, violências e exploração.
E o que fazer quando não queremos, ou não esperamos e somos mãe? O que fazer?! O Estado não protegeu, não cuidou, não zelou, não educou, não realizou sua função, ao contrário, culpa, incrimina, julga e pune.
Mulheres salvadorenhas são condenadas em até 40 anos de prisão porque abortam. Nós, mulheres salvadorenhas, hondurenhas, nicaraguenses, dominicanas abortamos e somos presas em até 40 anos de prisão.o-ABORTO-EL-SALVADOR
Punidas porque somos mulheres, não somos donas de nossos corpos. Pertencemos ao Estado, aos desconhecidos, aos maridos, aos pais, os quais, em muitos momentos, nos invadem e nos oprimem.
Nós, mulheres da América Central, somos denunciadas por médicos e levadas às prisões, mesmo em situação de aborto espontâneo, complicações obstétricas e partos extra- hospitalares.
Desde 1998, El Salvador mantém a proibição total a qualquer tipo de aborto, incluindo casos nos quais mulheres e meninas sofreram violência sexual ou corriam o risco de perder a vida.
Na tentativa de denunciar o que ocorre em El Salvador, grupos feministas e de direitos humanos lutam pela absolvição das “Las 17”, em referência às 17 mulheres presas e condenadas a 40 anos de prisão por realizarem aborto ou simplesmente por sofrerem aborto natural.
Entre 2000 e 2011, das 119 mulheres processadas, 49 foram condenadas. São feitos em El Salvador, segundo o ministério da Saúde local, cerca de 19 mil abortos clandestinos por ano, mas as estimativas das organizações de direitos das mulheres são de pelo menos o dobro disso.
aborto-legalUm quarto das mulheres que abortam tem menos de 18 anos, a maioria é pobre e vive na região rural. É comum, porém, que mulheres mais abastadas tenham acesso a clínicas de aborto clandestinas particulares, ou que viajem ao México ou à Colômbia para obtê-los.E assim, o sistema de saúde público nos acusa e nos denuncia. A justiça nos nega o amplo direito de defesa.
Não passarão mais por cima dos nossos cadáveres. Legalizar o aborto, direito ao nosso corpo.
*Yara Manolaque é professora e ativista da Marcha Mundial das Mulheres de Pernambuco – Núcleo Agreste

segunda-feira, 16 de março de 2015

Pro feminismo avançar: Constituinte Já!

*Por Júlia Garcia e Maíra Guedes

Na última sexta, 13 de março, Salvador viveu uma dia inteiro de lutas. Pela manhã, dezenas de organizações se reuniram em frente a unidade da Petrobrás no Itaigara,  entre elas o MST, MMM, Levante Popular da Juventude, MPA, MAB, Consulta Popular, CMP, CUT, CTB, Força Sindical,  PT, Pc do B, PSB, movimentos de luta por moradia, todos e todas em defesa da Petrobras, da Constituinte e por mais direitos. A tarde o comando foi das mulheres, com as mesmas pautas, em marcha do Campo Grande à Praça Castro Alves, e com unidade ainda mais ampla do que pela manhã.
O momento de cerco político e crise econômica mundial coloca para esquerda que o desafio da unidade ensaiado em julho de 2013 precisa seguir. É uma questão de sobrevivência. Depois de um longo de dia de lutas, essas jovens feministas que vos escrevem fizeram algumas reflexões aqui compartilhadas. Longe de nós querer dizer como cada organização política vai conduzir suas ações, e talvez você que agora nos lê já esteja cansado/a de saber sobre o que refletimos,  mas optamos por não deixar somente ecoando pela Praça Castro Alves nas conversas e cervejas que comemoraram o dia vitorioso.

Apesar de não estarmos em momento de golpe, a desestabilização do governo é uma das formas de pressionar mais ainda pra que se implemente medidas neoliberais. Isso não pode transformar nossa estratégia na eleição de 2018. Parece simples, mas não é. A eleição é parte da tática, e a tática não pode ser confundida com a estratégia. De tão óbvio parece bobo. Mas a esquerda desde a década de 90 transformou sua estratégia na tática eleitoral. Se naquele período o “Lula lá” foi a meta-síntese, agora, em 2015, defender o Governo Dilma e para alguns pedir “Lula lá” de novo parece ser a pauta máxima. Derrotar o neoliberalismo não passa somente por GANHAR as próximas eleições – até porque na composição da frente que dirige o governo, a cartilha neoliberal não passa longe, vide o corte de 7bi na educação e a retirada de direitos trabalhistas. É preciso a construção de força em torno de uma bandeira política com capacidade de massas, que recoloque a centralidade do poder político e do poder popular. Essa bandeira não é a reforma política eleitoral, é a Constituinte.
Durante o dia 13 de março algumas pessoas questionaram: “vocês sonham demais, e até a constituinte chegar faz o que?”  É esse “até lá” a parte mais importante disso tudo.
Tem uma máxima que aprendemos com  as/os sandinistas que diz “Nós analisamos a realidade como marxistas e encaramos o marxismo como nicaraguenses.”  Pois bem, é esse o esforço,  e para isso, compreender o inimigo é fundamental. O que queremos de fato derrotar? E o que é necessário par derrotar? A burguesia interna brasileira, pela natureza capitalista da formação social e econômica de nosso país, está completamente atrelada à burguesia internacional e ao projeto político do imperialismo. Sem projeto de nação e subordinada, essa burguesia sempre priorizou as mudanças por arranjos políticos, pelo “alto” (ex: abolição, revolução de 30…), ela opera para que  as classes populares não participem dos processos, resolvendo as questões com maquiagens e arranjos políticos. Elas sempre optam por arrefecer a luta antes que o povo organizado coloque a centralidade do poder. Quando o poder político se coloca, as saídas são historicamente golpistas.
Nós não queremos arranjos políticos. A tarefa que se coloca para a esquerda é a construção de força social organizada para incidir na conjuntura e  alterar a correlação de forças em nosso favor. Isso significa um longo processo de formação da consciência, que só virá com trabalho de base e organização popular. É fato que a vida do povo melhorou desde 2002, mas é grave quando percebemos que a recomposição da classe trabalhadora com a formação de milhões de jovens operários nos últimos 12 anos não se reverteu em sindicalização. É preciso compreender porque grande parte das mulheres beneficiadas pelo Minha casa Minha vida em Salvador, por exemplo, votaram em ACM Neto do DEM. É preciso compreender porque 70% dos prounistas são contra o bolsa família.
O “Até lá” é o fundamental.  As reformas propostas pela direita ou até mesmo por organizações de esquerda, são retrocessos ou meras reformas eleitorais. No caso dos projetos de lei propostos pela esquerda, eles não cumprem com o principal objetivo que é a construção de força social.  Tem quem diga “mas nem essas a gente vai conseguir aprovar e vocês querendo constituinte.” O trabalho iniciado em 2014, com o Plebiscito Popular pela Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político foi a primeira grande ação de trabalho de base da campanha, é só o começo. É preciso retomar a compreensão de acúmulo de forças e abandonar o imediatismo. 
“Mas o povo tá com fome agora, as negras precisam entrar agora na Universidade, a violência contra a mulher precisa ser enfrentada agora, assim como os direitos trabalhistas precisam ser garantidos agora…” Isso é o óbvio. Mas esquecer a luta política por causa da luta econômica é erro grave aprendido por nós enquanto classe, que nos levou a derrota inúmeras vezes. Como bem disse Lênin  significaria esquecer todos os ensinamentos proporcionados pela história do movimento operário. E foi isso que a esquerda fez nos últimos períodos.
Essa idéia de que “o povo não sabe o que é Constituinte” é justificativa pífia. Se não sabe, a tarefa da/o militante é formar. E os 8 milhões de votos da primeira ação de trabalho de base da Campanha demonstraram exatamente o contrário. Primeiro exercício sugerido, abandone o colonizador que existe em você e confie nos trabalhadores e trabalhadoras desse país. Quando a esquerda se lança ao trabalho de base, à formação política e a organização popular podemos não somente eleger candidatas/os, ou ampliar a participação popular, mas voltar a construir um projeto de poder. Um Projeto Popular para o Brasil.
A tarefa agora é retomar o funcionamento dos comitês nos bairros, escolas, universidades, sindicatos e etc,  realizar ações por todo o país. Ações  formativas, entre cursos e ações de rua. Ontem, fizemos ecoar por Salvador “Pro feminismo avançar, pro feminismo avançar, Constituinte Já, Constituinte Já!” E o que ficou explícito é que se depender da luta das mulheres, avançaremos! 
*Júlia Garcia e Maíra Guedes são militantes do Núcleo Negra Zeferina, da Marcha Mundial das Mulheres em Salvador/BA. 

terça-feira, 10 de março de 2015

Reconhecer o feminicídio é reconhecer o direito a vida das mulheres

Sirlanda Selau*
Cláudia Prates**

O recente reconhecimento do feminicídio no Brasil significa mais uma conquista das mulheres, e mais um passo, para a erradicação da violência que marcam a experiência de vida das brasileiras. Desta forma, a exemplo da Lei Maria da Penha, a referida alteração na legislação penal foi comemorada pelo movimento feminista e de mulheres no país, bem como pela comunidade internacional, haja vista que se apresentam como medidas de efetivo enfrentamento as diferentes formas de violências que as mulheres experimentam.
O que chamamos de feminicídio é o assassinato de mulheres em razão de serem mulheres, que ocorre tanto no âmbito doméstico e familiar quanto fora de casa. Sabe-se que em grande parte dos casos, o assassinato da mulher é resultado de uma sucessão de violências, assédios, estupros e incontáveis violações, de ordem física e moral. Logo, reconhecer o feminicídio como um fenômeno específico, e que merece devido tratamento legal, significa também dar nome ao produto da violência de gênero.

Conforme Adriana Mello[1], a tipificação do Feminicídio é necessária, pois “o que não se nomeia não existe”. E nesta esfera é que a previsão legal em comento ganha relevância e torna público um fenômeno velado, que afeta milhões de mulheres brasileiras. Sabe-se que, entre 2001 e 2011, 50 mil mulheres foram assassinadas[2], em razão de serem mulheres, o que corresponde a média de 5 mil mortes a cada ano. Este quadro rende ao Brasil a 7ª posição em crimes desta natureza.

No último 03 de março, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 8305/14, do Senado Federal, que inclui na Lei Penal o Feminicídio, como homicídio qualificado e de natureza hedionda, o qual já foi sancionado pela Presidenta Dilma. Com isso, assevera-se a pena que restou fixada entre 12 a 30 anos, podendo ser agravada em 1/3 se a mulher estiver grávida ou estiver dentro do período de três meses após o parto; ou ainda se o homicídio for contra menores de 14 anos ou maiores de 60 anos, se a mulher tem deficiência física ou mental ou se o crime ocorrer na presença de filhos/as ou na presença dos pais da mulher.
           
Diante desta importante alteração legislativa, o Brasil se soma a outros países como o México, a Guatemala, El Savador, Honduras, Costa Rica, Chile, Peru, Bolívia e Venezuela, que já tipificaram o fenômeno em seus ordenamentos jurídicos. E, a exemplo de outras conquistas, esta é também fruto do protagonismo das mulheres, seja nas suas trajetórias pessoais, como também nas suas lutas identitárias, nas quais o direito é uma estratégia para reconhecer violências e assegurar uma vida de dignidades e igualdades.

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*Sirlanda Selau é Advogada na Costa Advogados Associados, militante feminista da Marcha Mundial das Mulheres
**Cláudia Prates é militante feminista da Marcha Mundial das Mulheres



[1]. Adriana Mello,  Juíza no Rio de Janeiro da I Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, com doutorado na Universidade Autônoma de Barcelona , especialista em casos de violência doméstica
[2] Fonte Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)


quinta-feira, 5 de março de 2015

8 de março de Luta Feminista em Caxias do Sul






"Todo dia nasce uma nova mulher
Nasce uma nova mulher, quando decidimos sair de casa
E entender que não somos só forno e fogão.
Nasce uma nova mulher quando saímos de relações opressoras
E dizemos não a qualquer outro tipo de opressão.
Nasce uma nova mulher, quando impomos nossa voz
Entramos na política e mostramos que também sentimos sede de revolução.
Nasce uma nova mulher quando se tem força para denunciar a violência,
O machismo, a lesbofobia, o estupro e a coerção.
Quando gritamos que o corpo é nosso,
Não do marido, da igreja ou do cafetão.
Todos os dias nascem novas mulheres, quem trazem consigo as cores do novo mundo.
Que perceberam que essas cores são as da esperança, do amor e da sororidade,
Que só com novas mulheres em marcha, se constrói um mundo de igualdade.
Onde nenhuma fique pra trás.
São Marias, Margaridas e Joanas que entenderam que podem até andar bem sozinhas,
Mas que juntas andam melhor, por quê seguem marchando
No ritmo de quem quer mudar o mundo e não se cansam
Pois seguirão em marcha até que todas sejamos livres"