terça-feira, 31 de agosto de 2021

O alerta da realidade do Afeganistão: o avanço do patriarcado capitalista no mundo

Shamsia Hassani retrata a força, os desejos e a dor das mulheres afegãs em grafites pelas ruas de Cabul e do mundo
Shamsia Hassani retrata a força, os desejos e a dor das mulheres afegãs
em grafites pelas ruas de Cabul e do mundo.


Denise Mantovani*
Cláudia Prates** 
Isabel Freitas***

Em agosto de 2021 o mundo voltou a olhar para o Afeganistão depois da retomada do poder em todo o país pelo Grupo islâmico Talebã e a fuga dos Estados Unidos, deixando à própria sorte milhões de pessoas, sobretudo mulheres e crianças. Um povo assolado por guerras perpetradas por Estados imperialistas desde 1979. Infelizmente, são as mulheres, crianças e idosos os principais alvos dessas violências de guerras, como os sequestros, os estupros, a escravização sexual, a fome, as doenças, o abandono, tortura e a morte. Em que pese as conquistas das mulheres afegãs nesses últimos anos na luta por mais direitos, das quais elas são as protagonistas, estamos vivenciando momentos terríveis, assombradas pela ameaça de aprofundamento dessas violências por governos de orientação misógina. Temos consciência dos limites dessa análise pelos filtros da luta ideológica hegemonizada pela versão do Norte global que afetam as informações que chegam até nós, apesar da internet, ainda que ela própria seja um meio controlado. Fazemos essa ressalva porque corremos o risco de olhar para um mundo do qual não conhecemos usando as ferramentas de análise que dispomos. Por mais que nosso ativismo feminista, antirracista e anticapitalista nos aproxime de um olhar crítico à dominação colonialista do Norte global sobre os países do Sul global, precisamos estar atentas para não reforçar estigmas e preconceitos ocidentais sobre as mulheres muçulmanas. Nossa luta é comum contra o discurso misógino, contra as interpretações sexistas e patriarcais das religiões contra nosso direito humano à igualdade, direito à educação, à sexualidade plena, a uma vida sem violências de nenhum tipo. Nossa aliança feminista é em favor dos direitos à autoafirmação dos povos e no interior dessas culturas, a luta contra as desigualdades e hierarquias naturalizadas. Nos unimos às nossas companheiras no mundo para desconstruir releituras misóginas e sexistas do sagrado para impor uma vida de subordinação e violências. Nossas lutas enfrentam visões colonialistas, racistas e machistas. Nossa solidariedade é sustentada no respeito e na consciência de que não detemos a palavra final, nem tampouco a verdade sobre o que acontece no Afeganistão. Estamos sujeitas a esses limites historicamente definidos por barreiras invisíveis construídas pela hegemonia da cultura etnocêntrica, masculina, branca e colonizadora do ocidente. Apesar do nosso ponto de partida estar nesse lugar ocidental, podemos e devemos nos associar ao combate e denúncia dessas violências provocadas por conflitos e guerras onde nossos corpos são os alvos, numa aliança com o patriarcado. 

Embora o patriarcado se expresse de forma muito articulada com sistemas de poder como o capitalismo, o colonialismo, o racismo ou as hierarquias religiosas, vemos ao longo da história da Humanidade que o patriarcado vai se adaptando às transformações sociais e políticas para manter como eixo de sustentação do poder a dominação e o controle dos corpos e da sexualidade feminina. São poderes e guerras controlados pela ideologia da supremacia dos homens sobre as mulheres. Essa realidade afeta as mulheres em todo o mundo. É possível dizer que na maior parte das sociedades contemporâneas os direitos de grupos são, de fato, antifeministas. E isso também envolve sociedades ocidentais, onde a naturalização das violências contra as mulheres se expressam nos ambientes públicos, na vida doméstica ou familiar.

A realidade de nossas irmãs afegãs expõe de forma brutal a realidade de direitos individuais que são retirados de todas nós em muitos lugares do mundo (ir e vir, estudar, trabalhar fora, ter seu próprio salário), assim como o direito de controlar sua sexualidade ou decidir sobre a vida reprodutiva (casamento, ter ou não filhos, custódia dos filhos, divórcio, aborto, salário ou patrimônio familiar). Como ideologia, o patriarcado define práticas culturais violentas sobre as mulheres ao longo da História. Esse sistema de poder, que tem mais de 5 mil anos, se manifesta na organização familiar, nas relações econômicas, nas instituições de poder, nas definição de leis (laicas ou religiosas), pelas burocracias religiosas, pela hierarquia, pela naturalização da subordinação. Ao longo da história humana, o patriarcado vem se transformando e se aliando a sistemas de poder político, econômico e religioso. Seja no caso dos estados teocráticos, seja no caso de democracias liberais e capitalistas, no ocidente.

No livro “A criação do patriarcado”, Gerda Lerner, explica que foi por volta do 3.000 antes da era Cristã que foram identificados os primeiros registros de vida em sociedade que se baseavam em conflitos e guerras, onde as mulheres dos povos derrotados eram estupradas, subjugadas e levadas como escravas sexuais, como troféu e marca da supremacia e poder dos vencedores. Os homens dos povos derrotados eram mortos. É nesse contexto histórico de imposição pela violência e pela força que o modelo da hierarquia masculina nasceu e foi sendo adaptado às várias formas de interpretar e definir a organização social ao longo de milhares de anos. A história de formação das sociedades no mundo é uma história contada por homens patriarcais em que a liberdade de uns é forjada na subjugação das mulheres, sobretudo pelo controle de seus corpos e de sua sexualidade. Por isso é importante perceber que o patriarcado não age sozinho. Está em aliança com sistemas produtivos baseados na exploração humana, como é o capitalismo e as guerras em nome dele. Com as hierarquias religiosas, em geral comandadas por homens, interpretações morais legitimam a subordinação e violência contra as mulheres. Para o patriarcado, a guerra sempre é um elemento fundamental de consolidação do sistema de poder. Mas não estamos generalizando, pois se trata de denunciar um tipo de masculinidade que se sustenta pela violência, pelo uso da força para exercer o poder, que naturaliza a hierarquia e a opressão, impondo suas vontades à força. O machismo que existe no mundo é a expressão desse tipo de ideologia que desrespeita as mulheres, suas vontades, seus desejos e o direito a uma vida autônoma. É o tipo de homem que se impõe pela força, pelas ameaças, pelas armas.

A realidade brutal enfrentada por nossas irmãs afegãs chama a atenção para o papel do patriarcado no mundo. O esfacelamento daquela sociedade coloca em evidência o “lugar” específico em que o patriarcado nos quer, seja na família ou na sociedade. A agenda antigênero, reacionária e misógina também vem assolando os países ocidentais patrocinados por grupos políticos racistas, neonazistas, autoritários, armados e militarizados com novos arranjos de poder sustentado pela extrema direita cristã espalhada pelo ocidente. A aliança internacionalista das mulheres é fundamental. Precisamos denunciar os retrocessos e as violências que ameaçam as conquistas fruto das lutas das mulheres afegãs, assim como a ameaça heteropatriarcal misógina, autoritária, capitalista e racista que ameaça as mulheres no mundo Ao contrário de uma versão colonialista, disseminada pelo mundo ocidental, as conquistas das mulheres afegãs não é resultado da bondade do poder invasor, mas do protagonismo e das lutas delas no contexto da realidade cultural e religiosa em que vivem.  

A questão religiosa é um ponto importante na aliança do patriarcado. Precisamos romper com um olhar ocidentalizado que desrespeita a realidade de lutas das feministas afegãs que seguem os preceitos do pensamento islâmico. Assim como as feministas cristãs (no Brasil), assim como as mulheres da matriz africana, as mulheres dos povos indígenas originários vem lutando para mostrar que o heteropatriarcado religioso tenta impor pela força uma ideia de sujeição e obediência, distorcendo visões do sagrado. Somos solidárias às lutas das feministas islâmicas que questionam visões tradicionalistas e hierárquicas e lutam pela revalorização da identidade das mulheres muçulmanas, numa dinâmica de lutas pela igualdade e respeito, contra visões essencialistas, estereotipadas, de subalternidade cultural e colonialista.

Nosso desafio é buscar esse diálogo respeitando nossas diferenças culturais lutando contra o patriarcado, o capitalismo e o racismo. Cremos que é possível estabelecer um diálogo respeitoso com as nossas irmãs afegãs porque não se trata de julgar ou discutir os preceitos relacionados à fé, à espiritualidade ou à relação das pessoas com a transcendência e as ancestralidades que organizam a diversidade e distintas visões de mundo. Mas de denunciar a forma como historicamente o patriarcado e as hierarquias religiosas vêm construindo arranjos de poder sustentados por interpretações dos acontecimentos sociais por homens que detém o poder. Apenas para situar um exemplo, o feminicídio no Brasil é mais elevado do que no Afeganistão. De acordo com dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), os países que mais mataram mulheres no mundo em 2020 foram: El Salvador, Colômbia, Guatemala, Rússia e Brasil. Esse paralelo mostra que aqui no Brasil vemos homens (e mulheres também) onde defendem um conservadorismo religioso e patriarcal quer que achemos natural e que silenciemos diante de um cotidiano de violências físicas, morais ou econômicas. Por isso, quando abordamos a questão religiosa, não estamos falando da concepção do Sagrado como concepção de vida.

Precisamos nos unir para denunciar como e por quem as histórias dos povos vêm sendo contadas ao longo dos séculos e quais interesses de poder atendem. A aliança patriarcal, capitalista, religiosa e colonialista quer o controle sobre o corpo e a sexualidade das mulheres. No caso brasileiro, por exemplo, o racismo gerado por essa aliança coloca sob risco permanente a vida das mulheres negras, indígenas e migrantes pela exploração de seu trabalho, seus corpos, usurpação de seus territórios, pelos assassinatos diários de seus filhos e parentes, pelo desemprego, a fome e a miséria que o governo racista e misógino de Bolsonaro e seus aliados oligarcas no Congresso e no mercado financeiro estão impondo para a maioria da população brasileira, destruindo tudo, sem se importar com a vida das mulheres. 

Esse paralelo tem o objetivo de reforçar que nossas lutas são pelo direito universal à igualdade, pelo respeito e autonomia sobre nossos corpos, contra as opressões e desigualdades que atingem as mulheres em todo o mundo. A misoginia predominante nas interpretações patriarcais das religiões colocam as mulheres em perigo em todo o mundo. Estamos em solidariedade permanente com nossas companheiras feministas afegãs, sírias, palestinas, mulheres africanas, latinas, negras, indígenas, mulheres antirracistas, anticapitalistas, mulheres feministas que reivindicam o direito de manifestar suas identidades como mulheres onde a espiritualidade é parte constituinte do ser, sem que isso signifique se submeter a interpretações patriarcais, colonialistas e misóginas sobre a relação com o Sagrado. Nossa solidariedade deve ser uma relação de troca, de denúncia e acolhimento da forma que for possível. Reforçar as lutas e resistências que elas vêm empreendendo.

Não sabemos o que vai acontecer. A cada dia as informações são mais aterradoras pelo nível de violência e descontrole provocado por conflitos, bombardeios, atentados e guerras intermináveis. Nossa luta contra o patriarcado capitalista e misógino é internacional. Porque se trata de enfrentar o crime organizado, de comércio ilegal de armas, de drogas, de corpos humanos femininos escravizados no ocidente e oriente que ganham muito dinheiro no sistema financeiro mundial. As violências que estão acontecendo no Afeganistão afetam diretamente as mulheres e seus filhos, sustentam o sistema capitalista financeiro, em sua nova fase devastadora. A guerra e a destruição dos povos está nas entranhas de sustentação do capitalismo financeiro em seu momento atual. É o capitalismo que gera e se alimenta dessas guerras, que no fundo, são guerras contra as mulheres e sua memória ancestral.  Nossa luta é comum contra a exploração dos nossos corpos, contra o capitalismo e o heteropatriarcado. Por uma nova sociedade sem violências, de respeito entre mulheres e homens, de respeito às nossas diferentes culturas, compartilhando valores universais de paz e igualdade, estamos unidas com nossas irmãs afegãs.

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!

Resistimos para Viver, marchamos para transformar!

 

*Denise Mantovani é jornalista, doutora em Ciência Política, militante feminista da MMM RS

**Cláudia Prates - educadora popular, militante feminista da MMM RS, integrante da Aliança Feminismo Popular

***Isabel Freitas - assistente social especialista em saúde mental e coletiva, educadora popular, militante feminista da MMM RS




domingo, 1 de agosto de 2021

É também sobre bananeiras! de Isabel Freitas.

É também sobre bananeiras!


Hoje, 1 de agosto de 2021, foi dado mais um passo na desconstrução do pensamento e prática que a indústria da comida quer afirmar como caminho único para a humanidade. Foi também a semana em que os movimentos sociais do nosso continente ergueram-se para protestar, organizar e resistir à ofensiva do mercado em mandar na nossa comida.

A caminhada para construção da pequena e potente horta comunitária no Morro da Cruz, é a prova de que temos condições de apaixonar as pessoas, principalmente as mulheres, da nossa capacidade coletiva de plantar comida em toda parte.  Comida boa, limpa, produzida coletivamente. Pode ser que a produção da horta, não dê conta de forrar tantos estômagos quanto seja necessário. Estamos vivendo um momento duro de desemprego massivo e precarização dos serviços públicos, principalmente nos serviços de assistência social. Tão importante como a comida é o resgate das possibilidades de produzi-las em qualquer terra, já dizia Ana Primavesi “não existe terra morta, a terra é um organismo vivo, precisamos alimentá-la". Pra quem não sabe, Ana é uma mulher pioneira no pensamento e pratica agroecologia no Brasil. A mística da Horta é também um espaço de troca das militantes feministas, antirracistas e anticapitalistas, com as mulheres do morro. É uma energia poderosa movida pela esperança de dias melhores. Enquanto os poderosos do mundo se acantonam para pensar como dominar o mercado do alimento; como dominar totalmente a natureza; como dominar os povos, as sementes, as águas, como nos matar envenenados pela comida que eles fabricam, as mulheres sobem o morro para alumiar as possibilidades de redesenhar essa história.

Um dia, depois de uma exposição tensa sobre a ofensiva do capital sobre a vida das mulheres feita pela companheira Miriam Nobre, estudiosa do tema da agroecologia e do feminismo, eu perguntei a ela, qual alternativa que temos? Ela, calmamente respondeu: “em tempos de crise extrema a nossa melhor alternativa é acender nossas lanternas em cima das coisas boas que as mulheres sabem fazer, isso nos dá força”, concluiu a Miroca, como a chamamos carinhosamente.  Eu sempre penso nessa frase dela. Estamos num período em que as vezes nem enxergamos o túnel, quem dera a luz que deveria estar no seu final. Nossa horta ainda está engatinhando mas, nossa esperança galopa! Vieram muitas mulheres, muitas crianças. As mulheres logo pegaram na enxada e perceberam que a terra do morro era muito dura.

No entanto, a dureza não ensaiou desistência. Hoje plantamos bananeiras para filtrar um vazamento de esgoto. Diz a lenda que bananeira é uma planta feminina, ela produz um cacho apenas, depois não teria mais utilidade. Na base da bananeira nascem filhas que vão reproduzir netas e assim a vida da bananeira se reproduz contando a história da planta mãe.  Nos sistemas agroecológicos as plantas mães, alimentam a pobre terra pobre.  Hoje na horta comunitária a planta mãe também vai servir para filtrar o descaso do poder público com o esgoto onde brincam as crianças filhas dos mais pobres de cima do morro.

E nós seguimos ressignificando nossas práticas fazendo resistência e também plantando bananeiras!  

Isabel Freitas é Assistente Social especialista em saúde mental coletiva e educadora popular agricultora urbana, militante feminista da Marcha Mundial das Mulheres.





sábado, 31 de julho de 2021

Artigo | “Baile de Favela”: Mas onde estão as feministas?!

 "A escolha da música Baile de favela é um erro segundo a classe média que nunca deve ter tido a vivência da favela"

Porto Alegre | BdF RS |
 


Ginasta Rebeca Andrade é a primeira brasileira a conquistar uma medalha na ginástica artística dos Jogos Olímpicos - Martin Bureau / AFP

A preta da favela, filha de uma empregada doméstica, que é mãe solo, conquistou uma medalha histórica nas Olimpíadas de Tóquio. 

Mas a escolha da música "Baile de favela" é um erro segundo a classe média que nunca deve ter experienciado a vivência de quem mora na favela. 

Que baixo nível! Será mesmo que não havia ninguém para dizer que ela não levasse em conta o contexto social em que vive antes de decidirem a música que seria usada? 

"Deu match, a música é a minha cara e não tem como negar'', disse Rebeca. 

Mas que horror! 

Gente, horror é o juízo de valor que vocês fazem, a criminalização, o preconceito ou seja lá que nome apaziguador que vocês queiram dar pra criticar hipocritamente o funk. 

O contexto social de quem vive na periferia é o oposto de quem repele e criminaliza o funk, fato! Caso contrário não veríamos tanto preconceito distribuído em textos, falas e expressões. Só que aí me pergunto onde vocês militam quando toca uma música entendida como de bom gosto que deturpa a mulher? 

Estava ouvindo “Tua Cantiga” do Chico Buarque quando me deparei com esse alvoroço no Facebook, e fiquei me perguntando se quando vocês ouvem isso não ficam com o dedo acusador coçando pra vir criticar quem consome esse estilo de música... 

“Quando teu coração suplicar
Ou quando teu capricho exigir
Largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir”

Chico se justificou, "Será que é machismo um homem largar a família para ficar com a amante? Pelo contrário. Machismo é ficar com a família e a amante".

Tá! Pulei então para a música seguinte, dei de cara com a “Bola Dividida” do Zeca Baleiro...

“Ela é uma morena sensacional
Digna de um crime passional
E eu não quero ser manchete de jornal...”

Zeca, apologia ao feminicídio em pleno 2008?! 

Pulei mais uma…

Formosa, não faz assim
Carinho não é ruim
Mulher que nega
Não sabe não
Tem uma coisa de menos
No seu coração

mas Vinícius, como assim?! Não é não! 

E o que vocês me dizem daquela mulher indigesta que merece tijolo na testa que quando se manifesta merece entrar no açoite?! Noel Rosa, meu filho!

O Bezerra da Silva terminou então como minha tour… 

“Eu só sei que a mulher que engana o homem
Merece ser presa na colônia
Orelha cortada, cabeça raspada
Carregando pedra pra tomar vergonha”

Tá certo! a problemática mesmo é a xota ardendo, como assim a Xota ardendo?! Ai essa turma da periferia, não tem cultura, não consome a Música Machista Popular Brasileira. (Contém ironia)

Aiai, o machismo sempre esteve escancarado nas composições musicais e essa exclusividade não pertence ao funk, ao contrário do que qualquer estereótipo possa apontar, só pra constar e dizer que o buraco é bem mais embaixo. 

A escolha da música carrega outros elementos que a gente esquece na hora de julgar. Não à toa estamos longe dessa parcela da população, não dialogamos mais com a juventude que cresce entre vielas, não compreendemos mais os anseios da periferia. 

Enquanto isso o fascismo no poder só cresce e se alastra, o genocídio consome vidas, e tem gente preocupada com as feministas que não se manifestam. 

Francamente, eu mulher branca jamais irei criticar a escolha de uma menina negra que sabe se lá pelo que passou para estar ali hoje inspirando tantas outras meninas negras de favela. Eu vou é comemorar a medalha dela, desejar que outras meninas tenham esperança, e tá tudo bem se a música for um funk. Estou mesmo é preocupada e ocupada em contribuir para mudar a realidade social de quem vive a margem da sociedade e que se afunda na desigualdade social. Quem sabe assim as letras de músicas mudem e reflitam um lugar bem mais adequado para se viver com dignidade. 

A feminista aqui está tentando entender como alguns homens não conseguem fazer a crítica sem cobrar posicionamento das mulheres. Eles sempre tendem a direcionar questionamentos a nós feministas, vai ver não se sentem responsáveis pela mudança estrutural que é urgente e necessária. Não se sentem parte disso ainda e acham que tudo é de responsabilidade das feministas. 

Que preguiça!

* Militante da Marcha Mundial de Mulheres, graduanda em Ciências Sociais, mãe, moradora da periferia.

** Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Katia Marko

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Aliança Feminismo Popular no Julho das Pretas

 


Dia 25 de Julho é data para rememorar a luta das mulheres negras latino-americanas e caribenhas para uma sociedade mais justa. É dia também de relembrar a história de Tereza de Benguela, líder quilombola símbolo da resistência contra a escravização. Ela foi a liderança do Quilombo de Quariterê, no século XVIII, após a morte de seu companheiro José Piolho, se tornou a Rainha do Quilombo, então liderou a resistência do quilombo à escravidão de 1750 à 1770.

A data é um grande marco na luta contra o racismo, hoje somos a Lei 12.987/2014 que criou o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, e ao celebrarmos este dia enfatizamos a importância do lugar da mulher quilombola e negra brasileira.
Seguiremos lutando por uma sociedade livre de machismo, racismo e neoliberalismo. Resistimos para que todas as mulheres sejam livres e os povos soberanos.

Confira também, no vídeo, a atuação que construímos como Aliança Feminismo Popular - Marcha Mundial das Mulheres, Amigos da Terra e MTST - Rio Grande do Sul nos territórios:

Julho das Pretas - Ação de Solidariedade no Morro da Cruz

 A Aliança Feminismo Popular (Marcha Mundial das Mulheres, Amigos da Terra e MTST - Rio Grande do Sul) , em parceria com o Sindipetro RS, realizou uma ação de solidariedade no sábado (17/07) no Morro da Cruz, em Porto Alegre (RS). Para ajudar no combate à fome, que se intensificou com a pandemia do COVID-19, foram entregues alimentos e produtos de higiene básicos para as mulheres do território, incluindo algumas integrantes do Grupo de Mulheres Mãos Unidas. Esta ação solidária faz parte das ações do Julho das Pretas e nos mostra a força e a potência que é a auto-organização das mulheres nos territórios!

✊🏽✊🏾✊🏿

segunda-feira, 12 de julho de 2021

# JulhodasPretas Está chegando o grande dia!






 Nossa II Roda de Conversa  no Julho das Pretas acontece  no próximo sábado (17/07) já tem link para inscrição e estamos ansiosas em começar a recebê-las.

Acessa https://bit.ly/TeInscreveNoJulhoDasPretas te inscreve e envia para tuas companheiras.

Preparamos uma programação especial para que possamos integrar esse espaço nacional de convergência no debate sobre o racismo e de como nossas lutas estão conectadas com várias outras lutas que nós travamos em comemoração ao dia 25 de julho - o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra e o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, data que foi sancionada pela Lei nº 12.987/2014 pela presidenta Dilma Rousseff.

Nossa Roda de Conversa terá a coordenação da companheira Jheiny Carolina, integrante da Marcha Mundial de Mulheres, e trará os temas: Feminismo Anticapitalista e Antirracista - Decolonialidade com a professora Bruna Santos; As Relações de Trabalho -  Economia Solidária e Agricultura Familiar - Soberania Alimentar e Saídas para a Fome e o Desemprego, com a Secretária de Combate ao Racismo da CUT/RS, Ísis Garcia; Estudantes, Assistência Estudantil e o Ensino Remoto, com Elaine Monteiro da UNE; além do Relato da Vida das Mulheres Negras da Periferia de Porto Alegre, trazida pela grande companheira do MTST, da Ocupação Povo sem Medo da Vila Nazaré, Isaura Aparecida Martins.

Vamos fazer desta tarde um momento potente de união de saberes e promover uma linda construção para nossa luta que é diári
a.






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Resistimos para viver, Marchamos para transformar

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Mais um passo na construção da horta comunitária do Morro da Cruz.




E você é de onde? 

Uma história de pertencimento pela horta e a possibilidade de comida de verdade.


por Carol Ferraz*

Isabel Freitas**

Gabriela Cunha***

No sábado 3 de julho, foi mais um passo na construção da horta comunitária do Morro da Cruz, zona leste de Porto Alegre. Um sopão aqueceu os corpos de mulheres e crianças que se reuniram para um mutirão de organização do espaço para receber o plantio na horta comunitária. Foi mesmo um sábado de esperanças, as ruas estavam cheias de pessoas que com muito cuidado e distanciamento recomendado, foram dizer NÃO apolítica genocida.

No morro, o grupo de mulheres Mãos Unidas do Morro da Cruz se misturaram com as mulheres da Aliança Feminismo Popular para pensar e fazer uma horta comunitária. Engatamos uma prosa sobre o que conhecemos de comidas. Lá encontramos mulheres que vieram de: Cachoeira do Sul; Roque Gonzáles; São Luiz Gonzaga; Candido Godoi; Santa Maria e outras localidades do RS. É um bom momento para lembrar da massiva busca das famílias rurais por uma vida melhor nas cidades, animadas pela promessa do emprego e uma vida melhor para os filhos e filhas, entrando coletivamente na estratégia do capitalismo agrário e da falta de recursos para uma vida digna na roça.

Junto com o trabalho pesado de limpeza do terreno e preparo do espaço das composteiras para receberem os resíduos de alimentos das casas da própria comunidade e que, degradados, se transformarão em matéria orgânica e retornarão como composto para a própria horta, falamos sobre solidariedade. Maria[1], que veio das missões do RS, terra que um dia já abrigou uma civilização do povo guarani, falou da sua experiência de viver um ano dependendo da solidariedade para conseguir cestas básicas. Ela nos contou que é faxineira e com a pandemia perdeu o emprego, só não passou fome porque encontrou mulheres solidárias. Vamos ouvir muitas histórias, iremos contar as nossas também, como feministas e como mulheres que se organizam para construir um mundo melhor, sem racismo, machismo, para corroer o capitalismo. 

A correção de rota das nossas estratégias tem como central nossa solidariedade, nossa capacidade de alicerçar um modo de vida ancorado no saber coletivo, na organização e na esperança de que o feminismo libertário é a saída para humanidade. Quando falamos em correção de rota, não quer dizer que estivemos erradas, quer dizer que temos uma mudança significativa no Brasil e no Mundo, isso requer repensar os caminhos focando nossa luz bem perto das potencialidades das mulheres negras, periféricas e das alianças que temos capacidade de construir. 

Ainda discutimos juntas possíveis soluções para o vazamento de esgoto na área, e ficou encaminhado entrarmos em contato com DMAE para buscar ajustes de longo prazo no saneamento básico. Ainda, a técnica de filtragem com pneus e cascalhos com plantio de bananeiras, que são plantas que gostam de solos úmidos, ajudará a resolver a contaminação da terra, porque funciona como um filtro biológico.

São 116,8 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar no Brasil, de acordo com pesquisa divulgada em abril desde ano pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), que reúne pesquisadores e professores ligados à segurança alimentar. Em um contexto de crise alimentar, a construção de hortas urbanas e peri-urbanas apoiam com a multiplicação da educação popular e permanência dos saberes populares sobre ervas e alimentos variados, além do fortalecimento das redes locais, especialmente entre as mulheres, na transformação desta realidade.

Naquele sábado vieram mulheres que já constroem estratégias coletivas no território, visto que lá já tem uma horta, um ateliê de costuras e muitas outras iniciativas em andamento. As mulheres que vieram trouxeram seus quitutes e artesanatos feitos pelas companheiras do grupo. A troca de mudinhas de plantas veio acompanhada de curiosidades e prosas sobre a importância de conhecer o potencial de cada planta. 

Enfim, foi um dia lindo de muitos passos, parafraseando o poeta educador: caminhando fazemos o caminho.


[1] Nome fictício por não ter pedido autorização de citação...

* Carol Ferraz é jornalista e integra a equipe do Amigos da Terra Brasil e a Aliança Feminismo Popular

** Isabel Freitas é Assistente Social,  militante da MMM RS e Aliança Feminismo Popular

*** Gabriela Cunha é Engenheira Ambiental, militante da MMM e Aliança Feminismo Popular





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