segunda-feira, 11 de junho de 2018

Nota de Repúdio a Violência sexista em Esteio/RS

“FALTA DE MANGO” - “FALTA DE DOMA” 

O piquete “Mulheres na Revolução” da Marcha Mundial das Mulheres, com todas as entidades e representantes de movimentos feministas escreve esta nota repudiando totalmente o ato de machismo, misoginia e apologia à violência contra as mulheres, expressado recentemente pelo grupo de whatsapp “Piquetes de Esteio. 
O ato começou após uma postagem da conselheira tutelar da cidade de Esteio,patroa e fundadora do piquete “Mulheres na Revolução”, Janaina Santos, que ao divulgar o card de seu programa “Fala Conselheira”, na renomada rádio TV Jornal Destaque - empresa de comunicação com 52 anos de atuação no município e grande apoiador da Semana Farroupilha - foi alvo de ataques de alguns dos participantes do grupo que a ofenderam com expressões machistas, precipitadas e violentas. Desde apontamentos de que a divulgação do card do programa teria cunho de “promoção pessoal”, chegando a comentários de que aquilo era “falta de mango”, e “precisa ser domada para não repetir o erro para mais frente cair da boca”, e assim como imagens de faca e animais postados por membros do grupo, fizeram com que a postagem no grupo tomasse proporções de absurdo linchamento de Janaína por participantes, em especial, do sexo masculino do Movimento dos Piquetes de Esteio. 
O sectarismo praticado por parte dos componentes os cega, levando a desconsiderar que existe a participação de crianças e adolescentes nos piquetes, nos CTG ́s, e em todas as atividades do acampamento farroupilha na cidade. 
O conselho tutelar é um órgão que serve de proteção aos menores, protegendo-os de atos ilícitos muitas vezes praticados dentro do próprio acampamento, e que todo e qualquer assunto referente às crianças e adolescentes é sim pertinente ao órgão, e um dever de todos os cidadãos conhecer sobre as leis que regem a defesa de crianças e adolescentes. 
Todos deveriam ter conhecimento sobre a atuação do Conselho no desenvolvimento de projetos voltados para a infância, e que durante a Semana Farroupilha, estes projetos são apresentados aos piquetes pelo órgão. Portanto, a divulgação de um convite para ouvir o programa na rádio e TV Destaque – “Fala Conselheira”, era apenas uma forma de tornar estas ações mais conhecidas em todas as instâncias, especialmente naquelas onde o Conselho Tutelar possui grande número de atendimentos. 
Apenas por esta razão: O piquete “Mulheres na Revolução”, sempre apresentou nos seus projetos a defesa dos direitos humanos, a participação das mulheres, de crianças e adolescentes, dos esquecidos na história como a população negra, visando a remoção das barreiras históricas e culturais, além de defender a união dos gêneros para a construção de uma nova sociedade. Devido a esses atos expressados pelos integrantes do “Movimento dos Piquetes de Esteio”, é que resolvemos tornar público este fato que acorreu com a conselheira Janaína Santos, através desta carta de repúdio, pois nos preocupa o fato de que estas são as práticas que verificamos sempre em nossos atendimentos, sendo reproduzidos e ensinado inclusive para as crianças. 
Um dos participantes do movimento escreveu que Janaína sofria de “falta de mango”. De acordo com o vocabulário tradicionalista a palavra “mango” faz referência a um objeto, um relho ou tala de couro cru, com cabo de madeira revestido de couro, com um fiel, para ficar pendurado no pulso do peão, usado na doma de potros ou potrancas”. 
Para muitas pessoas, o mango é um símbolo que remete a um poder sádico, neste caso, o poder do opressor contra o oprimido. Do gaúcho contra o cavalo, do homem contra o animal, e por aí vai. Assim como “Doma”, nada mais é do que uma maneira de dominação. Defender a utilização da força de um mango sobre uma mulher para ferir sua integridade física, ou até mesmo defender que a “falta de mango” é o que ocasiona um determinado tipo de comportamento é sem dúvida uma postura que vai contra as próprias leis brasileiras. E para alguns que talvez ainda não saibam (o que duvido muito), ou melhor, que ignoram a existência da Lei n°11.340/06 - que segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), é uma das três melhores legislações do mundo no enfrentamento à violência contra as mulheres. Mas, para parte dos integrantes do movimento dos piquetes da cidade, esta Lei ainda não é bem compreendida, mesmo depois de doze anos de sua sanção pela Presidência da República. Apologia à atos de violência contra a mulher também se configuram como crime, além de ser uma vergonha para quem pertence de fato ao movimento tradicionalista e teve que observar este ato vindo de pessoas cuja a contribuição para o movimento torna-se questionável. 
Sabemos que o MTG (Movimento Tradicionalista Gaúcho), que em tese, deve regular a ação destes piquetes e de seus membros aderiu em agosto de 2017, à ação internacional “He For She – Eles por Elas”, promovida pela ONU, que visa envolver homens e meninos na remoção dos muros sociais que impedem as mulheres de atingir seu potencial, além de defender a união entre homens e mulheres para a construção de uma nova sociedade. 
É por esta e tantas outras razões que os comentários sobre a postagem da conselheira tutelar Janaína Santos, não pode ser tolerado pelas pessoas que fazem parte deste movimento que há muito tempo se esforça para conscientizar os homens e deixar o machismo do lado de fora. Incentivo à violência contra mulher como correção de comportamento não pode ser banalizado e defendido por este tipo de pessoas que necessitam de espaços concedidos pela Prefeitura Municipal de Esteio na Semana Farroupilha. 
Cultuar a tradição gaúcha é sobretudo respeitar as mulheres como seres humanos que são: iguais aos homens.



Assinam: 
Piquete Mulheres na Revolução 
Radio TV Destaque 
Conselho Tutelar Esteio
Marcha Mundial das Mulheres – RS
Associação das Mulheres Negras Municipal 
Marcha das Mulheres Negras Estadual 
Grupo Atitude em Movimento LEFFA – Liga DE Futebol Feminino de Esteio
ACHE- Associação da Cultura Hip Hop de Esteio 
Casa de Cultura Hip Hop de Esteio 
Gitanas de Alma- Grupo de Dança 
Cigana USE- União Skatistas de Esteio 
Ser Salgueiro- Associação Carnavalesca 
ACONTURS- Associação dos Conselheiros Tutelares do RS 
Flamengo- Associação Esportiva 
SISME- Sindicato dos Servidores Municipal de Esteio 
M2 Laboratório Criativo 
Advogacia- Caroline Bettim

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Nota de Apoio as Professoras/es Perseguidas, em especial a marchante Vanessa Gil



#RepúdioAoEscolaSemPartido

A Marcha Mundial das Mulheres vem a público manifestar seu apoio a todas as Professoras e Professores perseguidos por fazerem seu trabalho e darem aulas que promovam a cidadania. 

Em especial apoio a Professora Estadual do RS Vanessa Gil que está sofrendo uma campanha difamatória pela página “Escola Sem Partido” com agressões verbais e tendo suas fotos e as postagens de seu facebook particular exposto de forma distorcida e criminosa. A dita página incita uma campanha difamatória e com discurso de ódio contra nossa companheira professora usando suas frases, post e até uma gravação de suas aulas sem autorização e de forma a distorcer seus conteúdos, palavras e manifestações.




A escolha da companheira Vanessa não foi por acaso, pois ao se identificar publicamente como petista e feminista afirmando que tem posição politica e que suas aulas serão ditadas pela Laicidade do Estado e por tentar construir juntamente com seus e suas estudantes pensamento critico e o debate por igualdade de gênero, de classe social e de raça ela se torna alvo da perseguição. 

Perseguição contra todos e todas lutadoras pela democracia e liberdade, perseguição que remonta ao século passado e a perseguição a professores, artistas e funcionários públicos em geral nos EUA, que ficou conhecida como Macartismo. Durante a Ditadura civil-militar o Brasil também viveu seu período de perseguição aos que insistiam e falar e pensar livremente, inclusive com torturas e assassinatos encomendados pelos Generais/Presidentes da nação, como ficou comprovado nos documentos recentemente revelados dos arquivos do FBI.

Nós não permitiremos que estes tempos obscuros de nossa história retornem, não vamos calar ou nos esconder como querem os integrantes deste grupo que persegue e difama educadoras, jornalistas e militantes das causas sociais. Vamos nos apoiar e gritar juntas que as professores e professores tem direito a liberdade de expressão e de pensamento dentro e fora de sala de aula, que a escola tem direito e necessidade de ser um ambiente promotor e propulsor de direitos, do livre pensar, formular e falar.

Na gravação divulgada sem a autorização da professora vemos que ela cumpre seu papel de educadora e corrige alunos que interrompem as colegas, garante o direito de fala das meninas e não permite que brincadeiras e conversa paralelas perturbem o bom andamento dos debates, a professora manifesta sua opinião com os alunos e alunas tem o direito de manifestar suas opiniões. 

O que repudiamos é o incitamento a violência e a distorção das palavras de quem se desafia diariamente a estar em sala de aula com salário parcelado, sem aumento e com sua dignidade ameaçada!

#FeminismoNaEscola

# FeminismoEmTodoLugar

#FeminismoParaMudarOMundo

segunda-feira, 7 de maio de 2018

CIRCULAR MAIO_2018



Marcha Mundial das Mulheres - RS


FORMAÇÕES E PLENÁRIA ESTADUAL

CIRCULAR

Maio/2018

Prezadas marchantes do estado do Rio Grande do Sul,Esta circular tem como objetivo alinhar as datas e conteúdos das nossas próximas atividades. A construção do Congresso do Povo já está acontecendo e vamos realizar em todos os núcleos do estado formações para estarmos alinhadas como MMM, assim como, com a atual conjuntura que vivemos e os ataques que ainda estarão por vir, precisamos estarmos fortes e mobilizadas. A agenda é grande e extensa. Além do congresso do povo, há encontros nacionais por vir, a luta por Lula Livre, campanhas eleitorais e etc…

A executiva ampliada, em sua última reunião dia 20/04/2018, em Porto Alegre, decidiu que cada região deverá realizar sua formação, antes da plenária estadual, com temas que acham mais necessários trabalhar, conforme localidade. As regiões devem ter essa autonomia quanto aos EIXOS que irão escolher para as formações. As companheiras da executiva estão à disposição para conversar sobre esses eixos em caso de dúvidas.
Segue abaixo as orientações, datas, e exemplos dos eixos possíveis:
- Formações Regionais: devem ser realizadas ATÉ 10 de JUNHO
As regiões (ex: Metropolitana, Serra, Centro, Litoral, Campanha) devem ser autônomas quanto o eixo que irão escolher para a formação, visto a necessidade de cada local.
Exemplo de eixos: Mulheres lésbicas e o direito ao corpo e a sexualidade, Enalesbi (encontro nacional de lésbicas e bissexuais), congresso do povo, aborto, apresentação da marcha para novas mulheres…
Em Porto Alegre:
- DIA 19/05/18 acolhimento da Marcha para novas meninas, no Parque da Redenção com roda de chimarrão, dinâmica e ciranda. (Gabriela).
- DIA 26/05/18, Sábado à tarde, os eixos serão: Conjuntura / Mulheres lésbicas e o direito ao corpo e a sexualidade (Nessa e Naiara);
- Plenária Estadual: 16 e 17 de JUNHO, em Porto Alegre
Como fechamento dos encontros regionais, faremos nossa plenária estadual antes dos Seminários do Congresso do Povo Estadual (julho) e Nacional (agosto) . É a nossa intenção nos prepararmos para contribuir com a análise feminista neste processo.
Orientamos a articulação dentro da FBP nas regiões, com reuniões de mulheres para virem aos congressos municipais e estaduais com a pauta da mulheres.
Link da Cartilha do Congresso do Povo:
Haverá inscrições e a possibilidade de algumas passagens para as companheiras de longe virem até a capital. Isso ainda está em aberto, precisamos saber quais, da onde vem, e a nossa viabilidade financeira.
IMPORTANTE:
Deverá ser encaminhado um e-mail para a executiva com as seguintes informações sobre as FORMAÇÕES REGIONAIS: Quando? Onde? Qual companheira será referência? Quais os eixos e quais serão as companheiras dispostas a atuar em cada eixo?
Faremos o esforço de pelo menos uma companheira da executiva estar acompanhando as formações, por isso é tão importante sabermos essas informações.
Curtam a nossa página no Facebook: https://www.facebook.com/MarchaMundialRS/
Aguardamos o contato de vocês!
            (51)984614906 - Gabriela
            (51)93619985 - Maria do Carmo


SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!




Lésbicas e Mulheres Bissexuais e nossa atuação dentro da MMM

Importante lembrarmos que o feminismo da Marcha Mundial das Mulheres unifica a luta de todas as mulheres.
Não somos uma organização identitária, mas isso não afasta a organização dentro das especificidades que compõem os diversos grupos de mulheres que compõem a Marcha. Por isso, apoiamos e incentivamos a participação de nossas militantes na Marcha das Mulheres Negras em 2015, na Marcha das Margaridas em cada uma de suas edições e nas ações locais e nacionais de lésbicas e mulheres Bissexuais, como a Marcha Lésbica de SP, de Porto Alegre e de outros espaços.
Em 2010, durante a 4a. Ação Internacional da MMM, quando caminhávamos entre Campinas e São Paulo nossa articulação enquanto lésbicas e bissexuais foi muito importante para enfrentarmos ações de rechaço ocorridas por parte, em especial, de mulheres rurais, às nossas expressões de sexualidade e afetividade naquela ação. Juntas, conseguimos promover, em sintonia com a coordenação nacional da Marcha, ações de formação que possibilitaram a aproximação com aquelas mulheres durante a caminhada, no sentido de compartilharmos nossas pautas e nossa visão de mundo, ampliando não apenas a compreensão de nossa sexualidade, mas a empatia necessária para que elas adotassem, a partir daquele momento, nossa luta como sendo também sua.
No ano de 2012, durante a realização do 8o. SENALESBI, em Porto Alegre, participamos pela primeira vez de forma mais articulada no Seminário Nacional de Lésbicas, como uma forma de compreendermos a dinâmica nacional dos diversos grupos e levarmos nosso feminismo também para este campo de ação. No entanto estávamos desarticuladas e a participação da MMM foi tímida. Em Teresina, em 2016, no 9o. SENALESBI haviam diversas companheiras da MMM de todo o Brasil, mas mais uma vez atuamos de forma isolada, a partir de nossas articulações e grupos identitários locais.
Entendemos que essa forma de participação não é suficiente para dar conta do feminismo da Marcha e da influência que este pode ter nos rumos dos SENALES, como forma de organizarmos e trazermos outras mulheres lésbicas e bissexuais para a atuação feminista dentro da MMM, entendendo-se como lés-bi, mas essencialmente como lésbicas e mulheres bissexuais feministas.
Compreendendo isso, durante a ação no Uruguai, em 2017, surgiu a ideia de um Encontro Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais da MMM, o I ENALESBI, que articulamos agora.
Não pretendemos com isso, de forma nenhuma, segmentar a luta feminista da MMM, pois reconhecemos que a ação conjunta de nossas pautas é a única forma de avançarmos no feminismo. O que esperamos e chegarmos articuladas, afinadas e com encaminhamentos tirados a partir da base e de discussões nos nossos estados para o 10o. SENALESBI, que ocorrerá em Agosto na Bahia.
Consideramos que esses debates e discussões podem jogar luz sobre a invisibilidade e o apagamento das nossas identidades sexuais no movimento feminista como um todo e que podemos disputar com o nosso feminismo as mentes destas mulheres, ajudando nossa ação nos estados e reafirmando o feminismo includente, ativo e participativo da MMM Nacional e Internacionalmente."

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Nota de repúdio ao silêncio e a impunidade em Santana do Livramento



Nota de repúdio

Nós, mulheres representantes de diversos movimentos sociais, denunciamos a banalização da violência contra as mulheres, a objetificação de nossos corpos, a culpabilização da vítima e o silenciamento das Instituições de Ensino perante casos de violência de gênero, sejam elas violências de cunho sexual, físico, moral, psicológico, no município de Santana do Livramento.
Sabemos que uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil, carente da padronização no acolhimento e principalmente registros ou notificações corretas. Segundo a Secretaria Estadual de Segurança Pública do RS, o estupro contra as mulheres foi um dos índices que sofreu aumento, incluindo o estupro de vulnerável nessa estatística. Foram registrados 1.574 casos em 2016 e 1.661 em 2017, ou seja, uma elevação de 5,5%. É importante ressaltar que os dados fazem referência apenas aos crimes denunciados oficialmente pelas vítimas, ou seja, na realidade contamos com mais casos do que os levantados pelas autoridades.
A Marcha Mundial das Mulheres desde 2009 denuncia o descaso das autoridades em solucionar os casos de feminicídios, estupros e violência doméstica contra as mulheres. Recentemente recebemos uma denúncia de estupro contra uma estudante, menor de idade, da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, campus Santana do Livramento. O silenciamento da Instituição é demonstrativo dessa cultura de desrespeito e agressão às mulheres.
Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei 8.069/1990:
Art. 2º - Considera-se criança, para os efeitos dessa lei, a pessoa até 12 anos de idade incompletos, e adolescentes aquela entre 12 e 18 anos de idade.
Art. 4º - É dever da família, da comunidade, da sociedade geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.
Art. 5º - Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punindo na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.

Nesse sentido, entendemos que as Instituições de Ensino da nossa cidade devem tomar para si a responsabilidade da ampla discussão sobre tais questões, para que desta forma comecemos a avançar rumo à transformação no cenário local, historicamente conivente com a violência contra a mulher.
A partir do relato da vítima, vemos que existe grande despreparo por parte da rede de serviços de proteção e acolhimento com as quais ela deveria poder contar, contra isso erguemos nossa voz. Não iremos compactuar com este tipo de prática, razão pela qual exigimos procedimentos de investigação adequados, identificação dos agressores e punição dentro do que garante a lei.
A culpa NUNCA é da vítima.

Marcha Mundial das Mulheres do Rio Grande do Sul – Coletivo Santana do Livramento
Coletivo LivraElas
Setor de Gênero do Movimento Sem Terra
Instituto Mulheres de Santana

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Sobre a filha que não tenho

Por Suelen Aires Gonçalves*

Desde que vi a imagem da capa da Folha de São Paulo (21/02/2018), cuja legenda a descreve como “[m]ilitares inspecionam mochilas de alunos em operação em favela na zona norte do Rio”, vi uma fotografia de uma garota negra em evidência olhando com medo para os militares armados com fuzis revistando as mochilas de seus colegas no início do ano letivo das escolas cariocas, estou com inúmeras inquietações. Eles tem coragem de revistar crianças, foi minha primeira inquietação, já com um nó na garganta e a segunda inquietação veio logo após, essa menina poderia ser minha filha.

Não sei se a “inspeção” ocorreu em frente ao portão de alguma escola da zona norte da cidade, onde essas crianças estavam se deslocando para o início das suas aulas. Tampouco sei se a reportagem informa esse detalhe – até porque não assino a Folha. Ainda assim, considerando a hipótese que, para realizar essa inspeção, o local mais adequado para encontra estes alunos seria, justamente, o portão da escola que se dirigiam, acho plausível assumir, por ora, que é uma hipótese válida. Outra hipótese que posso considerar é que esta escola encontra-se, provavelmente, em alguma comunidade periférica do Rio de Janeiro, tendo em vista a cobertura midiática dos esforços do governo em garantir mandatos coletivos de busca e apreensão apenas nestas comunidades.
Agora, para ajudar num exercício de alteridade, pergunto qual seria a reação, dos setores médios e altos da opinião pública, se essa mesma inspeção fosse realizada em escolas da zona sul do Rio de Janeiro? Em bairros valorizados e de classe média alta e classe alta? Qual seria a reação? Seria tomada com tanta naturalidade?

Sou uma mulher adulta, tenho 31 anos e por alguns segundos que revivi minha memória de infância. Para quem não me conhece, carrego uma lembrança negativa e marcante da minha infância que alguns já me ouviram falar, mas para os que não sabem, eis um pouco da história. Vivi desde criança em uma ocupação urbana, chamada Nova Santa Marta na cidade de Santa Maria/RS, mais conhecida como minha doce favela, como diria Nei d’Ogum, grande amigo e saudoso companheiro. Não me recordo bem o ano, mas entre 1995 e 1996 nossa ocupação foi sitiada pela polícia militar, no Rio Grande do Sul ainda é chamada de Brigada Militar. O motivo para tal ação, hoje óbvio, era de “conter a invasão”. Por “invasão”, leia-se “ocupação urbana”. Ela estava tomando uma proporção grande para o momento histórico. A “invasão” era desumanizada, pelas autoridades e noticiários, seus protagonistas eram uma massa de “sem-tetos”, compostos de “tudo o que não presta”, desde “bandidos”, “putas”, “drogados” e por aí vai.

Assim como hoje, no Rio de Janeiro, o que estava colocado pela operação da Brigada Militar na Nova Santa Marta era a criminalização da pobreza e da população negra, majoritariamente presente no interior do Rio Grande. Hoje, novamente, a intervenção militar no Rio de Janeiro mostra a continuidade deste tipo de operação. As armas presentes e o Estado ausente.
Tenho 31 anos, a menina da foto que me chocou hoje poderia ser minha filha, caso tivesse optado em te-la. Vivemos situações semelhantes, cada uma a seu tempo. Situações de exposição direta a violência simbólica do estado, violação de nossos direitos básicos, produção de morte política e muitas vezes física, a necropolítica, como diria Achille Membe.

Eu, moradora de uma ocupação no interior do Rio Grande do Sul, ela moradora da favela no Rio de Janeiro. Ambas mulheres, ambas negras. A guerra é contra nós, o extermínio da população negra está em vigor neste país desde seu nascedouro. Vivemos uma guerra constante contra a maioria da população neste país. A “guerra as drogas”, a perseguição aos “bandidos”, tem endereço e tem cor – é periférica e negra.

Recordei-me dos diálogos com minha mãe, dona Maria de Lourdes, mais conhecida como “Dona Lurdinha”. Algo em comum nos une, lembro de outras mulheres negras expressando o mesmo diálogo e preocupação. Ela falava sobre preconceito de classe, de gênero, sobre racismo e como combate-los, mas também falava de autoestima, de amor e sobre afeto como diria bell hooks. Hoje entendo minha mãe, ela sempre nos alertava sobre nossos direitos e deveres como cidadãos em formação que éramos, eis umas das suas frases recorrentes de seus longos diálogos: “nós, negros, temos nossos direitos... conquistados por muita luta e ninguém tem o direito de violá-los, vocês entenderam”? Hoje, não teria ao certo certeza de afirmar a mesma frase para minha filha. Minha mãe, em 1988 lutou pela constituição cidadã. Hoje não a temos para salvar nossos filhos e filhas. Vivemos um estado de exceção desde muito tempo, mas hoje, mais uma vez, eles buscam legalizar o nosso extermínio.

Te cuida, minha filha.
Leva teu documento, teu lanche e não corra. 

Eis o que, quem sabe, diria à filha que não tenho.


* Suelen Aires Gonçalves é militante do Movimento Nacional de Luta Por Moradia (MNLM), da Marcha Mundial de Mulheres e doutoranda em Sociologia pela UFRGS.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Plenária Unificada de Organização do Oito de Março.

  • Quinta-feira, 15 fevereiro
     das 18:30 - 21:30
    Local: Travessa Leonardo Truda, 98, 4º andar
  • O Dia Internacional das Mulheres está chegando e precisamos organizar a nossa LUTA UNIFICADA, como fizemos no ano de 2017. 
    Defendemos um 8 de março UNIFICADO entre todos os movimentos de mulheres, entidades e partidos defensores da DEMOCRACIA, DIREITO A TERRA, MORADIA, ALIMENTAÇÃO, TRANSPORTE PÚBLICO, EDUCAÇÃO E UMA VIDA SEM VIOLÊNCIA PARA TODAS NÓS.
    Se some conosco nessa LUTA!

Chamamento ao Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA)

Companheiras, 

Nos dias 17 a 22 de março, em Brasília, acontecerá o Fórum Mundial Alternativo da Água, o FAMA. 
O FAMA faz um contraponto e denúncia ao autodenominado 8º Fórum Mundial da Água, promovido por grandes empresas que buscam impulsionar a privatização das fontes de água e serviços públicos para ampliar seus lucros ao se apropriar dos bens comuns. 

O FAMA é construído por organizações e movimentos sociais e tem o objetivo de unificar a luta contra o acaparamento da natureza e a tentativa do mercado de transformar a água em uma mercadoria, através do controle das reservas e dos serviços de saneamento. 

No contexto de golpe e expansão do neoliberalismo, a defesa dos bens comuns e contra a mercantilização da natureza é fundamental. A participação da Marcha Mundial das Mulheres no FAMA faz parte da nossa luta contra o livre comércio e as transnacionais, e se relaciona acúmulos que extraímos da Jornada Continental pela Democracia e contra o Neoliberalismo. Atuamos em aliança com movimentos sociais como a CUT e o MAB,

Existe um processo de construção do FAMA em vários estados, a partir de comitês locais. Ao todo já são 15 comitês em processo, quais sejam: Amapá, Bahia (2), DF, Ceará, Espirito Santos, Maranhão, Pará, Paraíba, Paraná, Piauí, Rio de Janeiro (2), Rio Grande do Sul (2), São Paulo (2), Sergipe, Minas Gerais. Convocamos as militantes da Marcha para o FAMA.
Caso vocês já estejam envolvidas em seus estados ou definam se organizar para participar, nos enviem um contato de referência para construirmos coletivamente nossa intervenção. Caso vocês já estejam envolvidas em seus estados ou definam se organizar para participar, nos enviem um contato de referência para construirmos coletivamente nossa intervenção.

Água é um direito, não mercadoria!

Seguiremos em Marcha até que todas sejamos livres!



Para saber mais acesse o site do FAMA