sábado, 26 de março de 2011

A luta das “mães do Mariani” por educação infantil: expressão da busca por direitos










*Por Daniela Anunciação e Raquel Duarte

“Mães do Mariani”, assim ficaram conhecidas as moradoras do bairro Mariani de Caxias do Sul, que se tornaram um exemplo de organização e luta das mulheres na cidade.

Elas saíram da reunião do Orçamento Comunitário do bairro (processo que substitui o Orçamento Participativo no município) com a certeza de que em breve teriam a tão esperada escola de educação infantil. Não podiam imaginar que aí iniciaria um verdadeiro martírio.

Em fevereiro deste ano, a prefeitura autorizou o início das obras. Porém para total surpresa, no terreno destinado à construção da “creche”, seria construída uma área de lazer.

Como assim? Ficaram sem entender como é que a grande prioridade do bairro – escola de educação infantil – tinha se transformado de uma hora para outra em uma área de lazer. Mas elas não ficaram paradas.

Sentindo-se extremamente injustiçadas, as mães do Mariani uniram-se para reivindicar seus direitos. Com a chegada das máquinas no terreno onde seria construída a área de lazer, impediram o início das obras com seus próprios corpos.

Em outro momento, participaram de audiência pública, cobrando posição d@s vereador@s do município, entregaram abaixo assinado para o Ministério Público, fizeram manifestações em frente à prefeitura, exigindo resposta do Prefeito, e nada.

Mas elas não se cansaram. Ocuparam simbolicamente o Centro Comunitário do Bairro, e lá organizaram uma verdadeira “creche comunitária”. Fizeram alimentação e organizaram atividades para mais de quarenta crianças. E a resposta do poder público municipal, para espanto, ou não, foi dizer que a partir de agora, a mobilização das mulheres se tornara um caso de polícia, mostrando total desrespeito para com os direitos humanos.

Mais uma vez, as mulheres não se intimidaram. Elas conhecem seus direitos!

Ora, o centro comunitário pertence aos moradores do bairro, e como sócias da Associação do Bairro, têm todo o direito de ocupá-lo pacificamente.

Ainda sem obter qualquer retorno positivo para a demanda, no dia 21 de março, as mulheres fizeram uma caminhada de 10 Km, do bairro Mariani até a prefeitura. Pararam o trânsito, e chamaram a atenção da população para a sua luta, que não é só delas, e sim de toda a cidade. A final, a realidade da educação infantil no município tem se mostrado muito aquém das necessidades da população Ao chegar à Prefeitura entregaram um documento ao representante do prefeito, com suas reivindicações.

A luta das mulheres pelas “creches públicas”, não é uma luta recente. Estudando a história do feminismo, percebe-se que em meados do século XIX, feministas como Clara Zetkin, Alexandra Kolontai, entre outras, afirmavam o papel do Estado na socialização das tarefas domésticas, por meio de serviços como lavanderias, restaurantes populares e “creches”.

Essa luta continua muito atual. A construção de escolas de educação infantil tornou-se um direito da criança e uma política pública para as mulheres. É um direito da criança, uma vez que é a primeira etapa da educação básica, e, portanto, um dever público.

Sem “creches públicas”, é impossível caminhar na direção da igualdade entre homens e mulheres. Claro, numa sociedade onde é latente a divisão sexual do trabalho, a quem recai a responsabilidade das tarefas do cuidado e da educação?

A garantia de vagas em “creches públicas” constitui-se em uma política pública básica para o acesso e a permanência das mulheres no mercado de trabalho e, também para acesso ao lazer, à educação e participação em espaços da sociedade. Reafirmando: a educação infantil, é um direito da criança, da mulher, da família, e responsabilidade do Estado.

Resultado da luta das “Mães do Mariani”? A prefeitura continua defendendo a prioridade da construção da área de lazer, deixando a construção da “creche” em segundo plano, ou melhor, fora dos planos, demonstrando um total desrespeito com toda a população, e uma insensibilidade tamanha com a luta das mulheres.

Neste exato momento, as mulheres estão acampadas no local onde deveria estar sendo construída a escola de educação infantil. Estão lá, com suas crianças, dia e noite, sob chuva e sol, contando com a solidariedade dos vizinhos e parceiros, e de lá, prometem não sair até uma resposta positiva do poder público.

As “Mães do Mariani” estão irredutíveis, incansáveis. Sua dura jornada já completará dois meses. Elas só querem que a prioridade eleita pelos moradores do bairro seja respeitada.

A luta das “Mães do Mariani” é uma luta de todas as mulheres. Construção de Escolas de Educação Infantil tem que ser prioridade. Todo apoio e solidariedade à luta das “Mães do Mariani”!

Daniela Andrade da Anunciação – Coletivo de Mulheres Estudantes/UCS e militante da Marcha Mundial de Mulheres

Raquel Pereira Duarte – Militante da Marcha Mundial de Mulheres

2 comentários:

  1. Olá mulheres!
    Também viemos expressar toda nossa solidariedade as "Mães do Mariani". Faz dois anos que trabalhamos neste bairro realizando os estágios do Curso de Agentes de Saúde e sabemos da realidade vivida pelas mães desta comunidade. Poxa vida, é muito reivindicar uma creche para seus filhos e para poderem dar sustentabilidade à eles?
    "Vamos seguir lutando trabalhadoras, vamos construir o poder do povo, contra o imperialismo e a burguesia, contra os governos e à polícia..."
    Samara, Cleunice e Jacilaine, militantes do MTD - Caxias do Sul.

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  2. Isso mesmo gurias... Podemos pensar algum ato em conjunto sobre o tema das escolas de educação infantil em Caxias. As mulheres do Loteamento Conquista também estão vindo à público, elas tiveram a creche prometida desde 2008, e até agora nada.
    "Às mulheres seus direitos e nada a menos..." É só isso que queremos, nossos direitos!
    Raquel- Cxs do Sul

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